quarta-feira, 11 de março de 2009

Dia Internacional da Legas

A gente poderia dividir as pessoas do mundo em dois: as que gostam e as que não gostam do dia do próprio aniversário. Eu e o corvo que pousa no meu ombro de tempos em tempos ficaríamos nesse último. Não gosto de ficar mais velha, não gosto de comemorar, fico meio deprezinha, enfim, sou um saco.

Já no outro grupo, o das pessoas que, SIM, gostam de fazer aniversário, acho que a principal representante deveria ser a Legas, minha amiga querida. Todo mundo que a conhece sabe que o dia 11 de março não é apenas o aniversário dela. É o Dia Internacional da Legas. Ela costuma dizer que nesse dia haveria acordo de cessar fogo entre os países em guerra, seria feriado mundial, e as festividades tomariam conta do planeta.

Assim sendo, obviamente, as festas do Dia da Legas eram sempre sensacionais e em geral contavam com várias dezenas de convivas animadíssimos, que levavam ainda outros amigos, que embora não conhecessem a aniversariante, sabiam que as festas eram imperdíveis e em geral acabavam com as luzes apagadas, som alto e gente bem estranha dançando descalça pela sala até o dia clarear. Esse era o típico final das festas.

Na verdade, o início da festa também era muito semelhante, todo ano. O evento era marcado para as 20h, porque a Legas queria "que começasse cedo pra durar mais" (sic). Por volta das 18h ela já estava com a casa arrumada, roupa nova, cabelo feito, olhos enormes brilhando e abria a primeira cervejinha pra acalmar os gremlins de sua ansiedade. Em seguida, os amigos mais próximos começavam a receber telefonemas da aniversariante que, após nosso alô, miava o seguinte: "Onde cê táááá? Você não vem?". Era sempre assim. Até chegar o horário marcado, cada um de nós já tinha recebido pelo menos umas 3 ligações desse teor.

Quando finalmente chegavamos à festa, as 20h em ponto, a pessoa já estava significativamente bêbada, com os olhos mais brilhantes e maiores (como se fosse possível) e nos recebia na porta, antes da campainha, como se estivesse de tocaia. Saía de bracinhos estendidos e se jogava num abraço, meio chorosa: "Achei que vocês não vinham! Achei que ninguém vinha na minha festa!"

E fazia isso pra todos os convidados, até os desconhecidos: "Eba amigo novo, achei que ninguém vinha na minha festa!". Quase uma centena de vezes. Cada vez mais feliz. Cada vez mais bebinha. E depois se jogava na festa, ria sem parar com aquela boca cheia de dentes e se divertia horrores. Todo santo ano.

Agora ela não mora mais em SP. A cidade perdeu um de seus melhores eventos.

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Zeca: Feliz Dia Internacional da Legas pra você!
I love you and I miss you.
Você tá sempre no meu pensamento e no meu coração.

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terça-feira, 10 de março de 2009

Chick Flick

Sabe como fazer pra que 9 mulheres independentes, bem-sucedidas e analisadas tenham mini-chiliques, suspirem em uníssono e fiquem com os olhos marejados?

É só o namorado de uma delas mandar entregar flores e chocolate no trabalho.

Ooooooh! Sooooo sweet!


se bem que havia uma delas, aquela com o corvinho no ombro, que parecia estar pensando: eeew! coisa de menina!
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segunda-feira, 9 de março de 2009

Todo dia era dia de índio

Eu não tinha certeza se eu ia comentar aqui, porque às vezes eu tenho vergonha de ser tão ranzina em público. Mas ouvi tanta barbaridade sendo falada nesse último dia 8 de março que resolvi escrever:

Dia Internacional da Mulher de cu é rola!

Minoria, né? Então tá.

No dia que existir um dia internacional do homem branco heterossexual a gente volta a conversar.

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Anna Scott, Notting Hill

Sobre a capacidade do cinema de representar as questões existenciais, eu já postei o meu personagem + cena número 1: o anjo do Nicholas Cage no momento em que cai no mundo (Cidade dos Anjos, remake do Asas do Desejo).

Como esta, há outras cenas que me levam pro looping recursivo infinito de pensar na vida. O que, aliás, eu faço o tempo todo, como se não houvesse outra coisa a se fazer no mundo.

Eis meu personagem emblemático + cena número 2: a atriz interpretada pela Julia Roberts no filme Notting Hill. É uma cena tão singela quanto genial que expressa a vulnerabilidade humana, aqui representada pela entrega despida de quem se declara pra pessoa amada.

A super rica, famosa, hollywoodiana, linda e espetacular atriz Anna Scott vai até a livraria do rapaz comum, interpretado pelo Hugh Grant. Ela leva um presente de valor inestimável, que ele não poderia comprar nem que trabalhasse a vida toda. Ela entrega pra ele uma gravura original do Chagall porque lembrou-se que ele gostava. Ele fica estupefato, mas não quer parecer deslumbrado, então resolve play cool e acaba não mostrando o quanto apreciou o gesto.

Ela fala que gostaria de vê-lo de novo. E com isso ela diz que sabe que as vidas deles são muito diferentes e que isso gera desconforto. E que por mais que a ela parecesse certo levar a história adiante, ela sabia que seria um esforço grande. Algo que só se pode aceitar, mas nunca se pode pedir.

Ele, o rapaz comum, se sente intimidado com o tanto que ele próprio acha tudo 'inacessível'. Acaba apenas concordando que aquela história seria muito difícil e não se oferece pra tentar.

Ela engole as lágrimas a seco e diz pra ele que não importa o dinheiro que ela tenha ou a fama e glamour que ela represente. Que alí ela é apenas uma garota pedindo a um rapaz que goste dela.

''I'm just a girl, standing in front of a boy, asking him to love her''.

O choro sufoca porque ela se dá conta de que tudo que se agrega de valor na vida é só uma casquinha. Querer alguém é despir-se de tudo e ficar a mercê do outro. Totalmente vulnerável.

Ao mostrar o seu querer você se expõe, apostando que seu sentimento seja acolhido e se transforme na maravilha do 'encontro'. Mas correndo o risco de uma dor tão dura que abala nossa vontade de sobreviver. Que é a dor de quem entrega seu coração de presente e o outro, por qualquer que seja a razão, não aceita.
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Diariamente

para o despertador: botão de off
para a roupa mané de trabalhar: cabide
para o café da manhã corrido: tempo
para o telefone que toca: secretária eletrônica
para o compromisso na agenda: desculpa esfarrapada
para o almoço: pastel de feira
para a academia: cinema
para o deadline: explosão!
para o calor insuportável: andar na chuva
para a vida valer a pena: cabular




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domingo, 8 de março de 2009

Am I the same girl? Really?

Z Carniceria. Rua Augusta, 934. Centro.

Na semana passada um dos amigos jovens sugeriu um lugar diferente pra nossa cervejinha semanal. No baixo Augusta, mantém o clima da locação - um antigo açougue. Tem garçonetes poptchura de topetinho e rabo de cavalo, dj a postos mandando bem num rockabilly clááááááássico.

Eu cheguei cedo, antes de todos os amigos, e acabei ficando por alí admirando a fauna população local. Misturados a uma pequena minoria de gente normal, havia menininhas descoladas em estilo lillyallenesque. Garotas mais "maduras", quase da minha idade, vestidas e maquiadas com um ar de Betty Boop. Uns novos modernos - 'os compridos' que agora andam por aí: muito magros, muito altos, meio andróginos, de roupa muito apertada e cabelinho liso meio comprido (acho que eles são a tribo chick magnet do momento; vieram substituir os cabelinhos encaracolados + barba).

E tinha também outra galerinha, que foi a que mais me intrigou, composta na maioria por homens, já confortáveis na década dos 30, de topete e costeleta, cheeeeios de tatuagens, piercings, alargadores de orelha, etc e tal. Eles me pareciam incrivelmente familiares. Era uma viagem ao século passado, quando esses caras ainda estavam na primeira tatuagem, exibida com orgulho em baixo da manga meio dobrada da camiseta. E eu ainda era menor de idade e meu pai me levava com as amigas pra dançar na Praça Roosevelt num muquifo chamado HOELLISH, que tocava rockabilly e era o lugar mais legal do planeta.

Corta pra quase 20 anos depois. Lá estamos todos: eu e os carinhas de topete que dançavam com a gente e faziam a gente suspirar de saudade durante a semana. Só que agora eles têm muitas tatoos a mais e alguns piercings pelo corpo. O resto estava igual: roupas, cabelo, atitude. E eu tenho quilos a mais. E uso roupas sem graça pra trabalhar no consultório. E tenho atitude sempre meio preocupada de quem carrega muitas chaves na bolsa. E nunca mais ouvi meus discos do Buddy Holly.

No caminho do banheiro passei pelo dj e tive um impulso de cumprimentá-lo, porque o som estava sensacional. Ele pareceu surpreso com o elogio e sorriu meio sem graça, daqueles sorrisos sem malícia que fazem os homens parecerem meninos - acho que foi por isso que eu o reconheci. Aposto que você tem 30 e poucos anos, eu disse. Ele só assentiu com a cabeça. Você não era amigo do Johnny e estava sempre na Hoellish da Praça Roosvelt? Ele deu uma risada mais relaxada de quem agora estava entendendo aquele papo esquisito: Nooossa! Faz tempo! Mas eu sabia que te conhecia de algum lugar... É, eu também sabia. Bom, valeu pelo som. Falou.

Ainda bem que ele me reconheceu. Porque eu mesma quase já não me reconheço mais. Tem coisas que aconteceram há tanto tempo que eu nem consigo saber se minhas memórias são de verdade.



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Fiquei tão saudosista! Deu vontade de dividir umas lembranças.








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sábado, 7 de março de 2009

Ao amigo cineasta, un croissant et un coer!

Tem esse meu amigo que escreve e faz cinema. Ele próprio é um personagem. Fala mais rápido do que o interlocutor consegue escutar. Às vezes come umas letras quando escreve. Parece ter mais coisas rolando dentro da cabeça do que consegue de fato por pra fora. Precisa escrever, falar, filmar. Ainda assim é inquieto e frequentemente distraído pelo seu próprio barulho mental.

Pelo que conheço dele, os relacionamentos humanos são o tema favorito. Acho que ele gosta de família, lealdade e vidas que se cruzam com ou sem motivo. Mas ainda se sente mais a vontade falando de histórias de homens e mulheres.

É corajoso o suficiente pra falar de masculinidade em tempos de feminismo estúpido e canalhização dos homens. Em tempos de politicamente correto consegue ser sensível e não ofensivo, mas ainda masculino, quando escreve sobre desejo, romance, sexo e paixão. Mostra até uma certa pureza, como quem não se tornou cínico sobre o sexo oposto apesar do conhecimento de causa. Um homem-menino que ainda não se desencantou por uma imagem idealizada das mulheres e, por isso, mostra-se um observador generoso e lisongeiro em seus textos. *

A nossa sorte é que ele bancou ganhar dinheiro com isso. Tem que escrever todo dia pra viver. Graças a deus não escolheu uma profissão outra, que o ocupasse e obrigasse a silenciar o turbilhão de idéias. É possível que ter que escrever doesn't matter what seja mais sofrido pro autor, mas é melhor pro público. O autor desafiado tem que aprender a disciplinar a inspiração.

Uma hora dessas no bar ele estava tão inquieto que não conseguia acompanhar o assunto da mesa. Do nada disse que ficava puto porque não tinha a certeza de que conseguiria um dia escrever um filme que todo mundo sacasse. Um filme universal. E foi assim que quem se perdeu do assunto da mesa fui eu, pensando sobre o que seria o filme universal.

O que será que faz uma obra tocar todo mundo? Não há de ser por uma história, nem por uma linguagem, nem por uma técnica. A forma acaba esbarrando sempre em um quê de regional e datado. O único jeito de ser universal mesmo é rasgar o coração e achar um jeito de filmar aquilo que se sente. Porque sentir é única coisa que faz todo mundo igual.

Pois é darling, eu lamento. Sei que vai doer, mas você vai ter que se acostumar a se expor mais e mais. E vai ter que aprender a entender porque é que as pessoas acham isso tão bonito.
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sexta-feira, 6 de março de 2009

mode: stand by

status: unfocused, unproductive and daydreaming

Será o efeito day after da noite mais quente do ano?

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Olha, minha gente: estou com a impressão que passei a noite toda ouvindo o 'coisa-ruim' bafando enxofre quente e cantando a plenos pulmões em ritmo do funk do quadrado:

órme, ó- órme
se eu não durmo ninguém dorme!


(letra "emprestada" da méliss)

quinta-feira, 5 de março de 2009

dos males o pior...

Fui no médico por causa de dor de cabeça e dor nos olhos. Chorei minhas pitangas, ele pediu uma xerox autenticada de crânio. Vesti a roupinha de chumbo e fiz a sessão de fotos ali mesmo.
(by the way, é incrível como neste ângulo nós todos parecemos uma bandeira de navio pirata ou uma estampa do Herchcovitch!)

Veredicto: sinusite.
Recomendações: não se exponha a poluição, não fique no ar condicionado, não respire pó ou outros agentes alergênicos, não nade em piscinas com cloro e não fume.

- Sim senhor, Doutorrino!

Eu tava mesmo achando que não era uma boa voltar pra natação. Já que não dá pra ter controle de tudo vamos eleger o pior mal e combatê-lo a qualquer preço!





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quarta-feira, 4 de março de 2009

o corredor X a salinha

sabe o que que era época boa? mas boa meeeesmo?

era a fase que eu e meus amigos estávamos no começo da carreira. ninguém ainda tinha dado certo na vida, mas existia uma certa esperança e uma certa chance de que a gente ia virar alguma coisa. estávamos semi-encaminhados, mas lá no final da cadeia alimentar, por assim dizer.
todo mundo meio em cargos de peão, ocupando o espaço do corredor, mas cheios de gás, cheios de idéias. e de brilho. a gente tinha que por a mão na massa, trabalhar pra valer, às vezes tinha algum pepino que só a gente sabia resolver. principalmente se era alguma coisa no computador. logo eu! a estagiária recém-formada era obrigada a passar a noite refazendo o trabalho deles porque nenhum dos fodidões sabia nada! na-da! só tinha mané naquele lugar...

foram várias altas horas fazendo trabalho braçal. mas sem muita responsabilidade. sem ter que decidir nada. só cumprindo as ordens que vinham do cara lá da salinha. ah! que longos cafés a gente tomava naquele corredor reclamando que alguém tinha dado tanta coisa pra gente fazer! o que que eles estavam pensando? por que não decidiu antes que era pra fazer do jeito B e pediu o jeito A? sabe come é chefe, né? chegou lá por pura politicagem, mas é uma anta.

só que naquela época, quando a gente ia pra casa, não levava nenhuma preocupação. a gente era feliz e quase não sabia que era depois do trabalho no corredor que a vida mostrava seu lado mais doce: sentar no bar com todo mundo e reclamar de o quanto o mundo era injusto por a gente não ter a grana e o tipo de trabalho que merecia! na boa, fora a gente, só tinha imbecil no mundo! a gente era a promessa. a solução. a genialidade bruta e incompreendida.

a gente passava noites e noites juntos no bar, inconformados com a incompetência e a mediocridade dos nossos chefes. se quem manda não fosse tão medíocre, nosso talento já teria sido revelado! é que aqueles adultos, sentados nas suas salinhas, insistiam em fazer tudo errado. não sabiam nem usar o excel e vinham mandar a gente, que estava naquela mesinha improvisada no corredor, refazer todo o trabalho que eles mesmos tinham pedido. e nem falavam inglês direito! como é que um despreparado desses virava chefe? a gente não entendia.


até que um dia a gente ganhou uma salinha qualquer, um crachá escrito aspone, um pouco mais de grana e muito, mas muito mais responsabilidade. e o compromisso de fazer acontecer no mundo real, nem que tivesse que ser medíocre. a gente aprendeu que o que funciona é o arroz com feijão, desde que seja no prazo e dentro dos critérios estabelecidos.

e em troca a gente abriu mão da nossa cabeça fresca no final de semana, do nosso tempo livre pra tomar longos cafés ou infinitas cervejinhas no bar. e quer saber o pior de tudo? a gente teve que abrir mão de talvez ser genial. e teve que parar de ficar só reclamando pelos corredores. o mundo não é justo mesmo.
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Meu deprimido favorito

Desde a adolescência. E no meu coração pra sempre.
Ninguém sabe sofrer tão lindamente como ele.

Vai lá, Morrissey! Chora, meu nêgo, chora...




PS: putz! acho que eu fiz pirataria sem querer!

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ontem foi terça?

ok, ok. eu entendo. vocês têm mais o que fazer.
claro, claro... na boa.

quem é que precisa de amigos inteligentes e cínicos pra fazer piada com tudo e debochar da patética condição humana numa mesa de bar, anyway?

contato humano é tão overrated na era da TV a cabo!

deixa tá. na hora que eu quiser eu arrumo companhia inteligente cínica e debochada...

humpf...

terça-feira, 3 de março de 2009

combustão espontânea

na boa: quantos graus tem que fazer nessa terra pra alguém ter misericórdia de nós e decretar estado de calamidade pública?

pelamordedeus, minha gente! escutaqui ô governantes, responsáveis, fazedores de leis!

que tal um feriado compulsório até que a temperatura ambiente volte a ser compatível com a vida?
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acho que eu tenho quase certeza absoluta

ou eu não poderia ser uma covre com certeza talvez

Tenho uma amiga que tem um gosto particular por saber a verdade por trás de tudo. Tinha que ser cientista, né? A gente estava no País Basco, num pueblito maravilhoso, todo lindinho, florido, europeuzinho, com gente simpática, bicicletas, igrejinhas. Um dia eu acordo e ela já está vestida, pronta pra sair:
-Vou 'desmascarar' essa cidade!
- Hein?
- É. Vou andar nas ruas laterais, vou chegar na periferia! Isso aqui tá tudo muito certinho. Só pode ser de mentira!

Na época eu achei muito engraçado e não dei muita trela. Uns tempos depois entendi que essa inquietação dela também me aflige. E que o negócio é muito mais sério do que parece. E se manifesta de várias formas. O que essas expressões de aflição têm em comum é o maldito assunto recorrente da minha cabeça nos últimos tempos: eu questiono tudo, duvido de tudo e não tenho nunca certeza de nada.

É sempre essa mesma mania. Se está muito arrumado quero saber se funciona na bagunça. Se está muito quieto quero saber se vai suportar quando houver barulho. Se está muito bom quero saber o que vai acontecer quando ficar ruim.

Que ódio dessa insuportável consciência de que tudo muda e de que nada é só bom ou só mau. Seria tão mais fácil classificar as coisas em certo e errado e apagar os tons de cinza!

Sem falar na insanidade que é ter que conviver com a relatividade histórica das coisas! Já reparou que nunca dá pra saber se algo aconteceu para melhor ou para pior? Sabe a perna quebrada que te impede de jogar no campeonato da escola e mais pra frente te deixa pra fora do time da cidade e depois ainda te deixa fora das olimpíadas, mas que no fim foi o que te tirou daquele avião de atletas que caiu e matou todo mundo?

O que eu queria mesmo era ter certeza que o que parece a melhor escolha hoje não vai virar a pior estupidez da minha vida amanhã.

Dá muito trabalho viver nessa vida de ponderações, entretantos e poréns. Affff...


it ain't over 'till it's over. you'll never know...
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domingo, 1 de março de 2009

O frescor, a minha inquietude e os meus dentes

ou mais um capítulo das Memórias do Século Passado

Eu devia ter uns 13 anos, não parecia mais criança, mas ainda não tinha muita cara de nada. Estava na frente do espelho estranhando aquela pessoa que eu via. Minha mãe entrou no quarto e, provavelmente sensibilizada com a minha cara de desapontamento, perguntou se estava tudo bem.
- Eu não gosto das serrinhas nos meus dentes.
- Ah filha! Elas só querem dizer que você é jovem, meu amor.
- Eu não gosto...

Mal sabia eu o quanto eu ia apreciar o que queriam dizer minhas serrinhas agora que elas são só um vestígio de imprecisão nos meus enormes dentes, e quase já não dizem mais nada daquilo.

Eu quero conservar o máximo que eu puder a risada fácil daqueles dias. A cabeça fresca, o inconformismo e a paixão fugaz pelas histórias e pessoas que passam pela minha vida. Quero morrer velhinha ouvindo música alta e quebrando a cabeça pra fazer coisas novas. De preferência cada vez mais difíceis. Porque por mais que eu busque incansavelmente uma zona de conforto, a calmaria acaba me irritando demais depois dos primeiros 10 minutos. Como diz a Penelope Cruz (na pele da Maria Helena no filme mais almodovariano do Woody Allen) com seu irresistível sotaque: cronic insatisfaction!

Quer saber? Fuck it! Alguma hora eu vou ter que aprender a abraçar a insatisfação eterna e entrar sem tanta relutância no seu looping recursivo infinito. E vambora procurar a próxima. encrenca.

Vai ver que é isso que as minhas quase idas serrinhas dos dentes querem dizer nessas alturas do campeonato.
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