Quando eu morava na
Philadelphia, eu costumava comprar meu café multicondimentado num copo de 20
oz. do
Wawa e me sentava na pracinha pra ver o movimento, ler alguma coisa, fumar meu cigarrinho e, inevitavelmente, fazer amigos. Sim. Fazer amigos na pracinha. Isso pra mim foi uma grande surpresa americana.
Toda a rigidez e frieza que fazem a fama dos americanos no ambiente de trabalho ou sei lá mais onde, realmente não existem no dia-a-dia da cidade. Se você está à toa num banco de madeira, todo tipo de gente pode parar pra conversar com você e ser seu melhor amigo durante aquele bate-papo. Mas outro dia eu falo mais dos inúmeros amigos que fiz na
Rittenhouse Square. Hoje eu queria falar de uma mulher só.
Era uma senhora dos seus 60 e poucos anos, bem bonitona de corpo, que devia ter sido muito linda na juventude (o que hoje só se imaginava pelo azul doído dos olhos). Estava vestida de forma um pouco mais jovial do que sua idade realmente permitia, mas sua aparência geral dizia que tinha um bom nível social. Ela se aproximou com um cigarro apagado entre os dedos e me pediu fogo.
Pra quem não sabe, o cigarro, assim como os bebês e os cachorros, são um ótimo quebra gelo social, e podem render assunto por mais de hora e criar amigos leais para sempre (se bem que os dois últimos, embora um sucesso na pracinha, não funcionariam bem na balada).
Nosso assunto veio fácil, principalmente porque tinham acabado de aprovar a lei antifumo na costa oeste dos Esteites. E foi então que ela fez sua observação triste, de como os prazeres humanos mais elementares vão se submetendo às mudanças do mundo.
Quantos anos você tem,
honey? ela perguntou. E depois da minha resposta emendou: então, você não sabe o que é sexo sem se preocupar com HIV e camisinha.
True. Quando o mundo conheceu o paciente zero da AIDS eu tinha 8 anos.
And now baby, ela completou, a nova geração não vai saber o que é passar horas e horas bebendo alguma coisa e fumando com os amigos ao redor de uma mesa!
A conversa se desenvolveu com imensa cumplicidade entre nós, como duas pessoas sortudas que puderam passar os jovens anos fumando com os amigos no bar. Só quem já fez isso sabe do que se trata. E não tem nada - ou quase nada - melhor nesse mundo.
Você pensa na vida entre baforadas e muda de opinião e revê seus conceitos e se torna uma pessoa melhor a cada bituca fedorenta apagada. O tempo de se queimar um cigarro é o tempo de gestação de uma idéia brilhante. Aquele dia na pracinha nós duas tivemos certeza de que a Revolução Francesa e a Independência Americana jamais teriam acontecido se não fosse permitido àqueles homens fumar com os amigos no bar.
Eu sei que é pro bem de todos e etc e tal. Mas vou falar uma coisa pra vocês: a minha vida nunca mais será a mesma depois dessa lei antifumo. Tô achando péssimo. Muito ruim mesmo. Tô bem triste.
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