tem gente que acha que o nosso destino está no futuro. que existe uma história com um final certo escrito pra gente. que a gente pode dar a volta que for, mas que vai chegar onde tem que ser.
eu acredito em destino. mas não nesse daí do futuro. às vezes eu até queria acreditar que existe um master plan, que tem alguém tomando conta. seria um grande alívio. mas eu não consigo. não tem como eu conseguir acreditar que alguém ou alguma coisa se incumbiu de escrever um final pra história de cada um dos seres humanos que habitam esse planeta redondo e achatado nos polos.
o destino que eu acredito é o que nos foi dado de graça. é o que está no nosso começo. traçado e imutável: a família que a gente nasceu, a nossa estrutura óssea, a cara, o país, o tempo histórico, o DNA. isso sim tá escrito. disso não dá pra fugir.
daí pra frente não tem nada escrito. aliás, mesmo que a gente escreva uma vez, não quer dizer que fica lá igualzinho pra sempre: alguém vem e apaga, escreve por cima, ou a gente mesmo escolhe ler e re-escrever ou apenas interpretar diferente. isso muda tudo. até o passado.
o resto é tudo, absolutamente tudo, fruto de escolha e acaso. e dentro do acaso a gente tem a variante 'timing', que muda a cara das coisas e faz a gente acreditar em sorte ou azar. mas não se engane: é tudo escolha e acaso. às vezes mais acaso, às vezes mais escolha. só não tem como fugir disso.
fora o fato de estarmos aí, vivos, que nos foi dado de graça, todo o resto é escolha e acaso.
e nada mais é de graça.
.
Mostrando postagens com marcador filosofia e filosofvinha. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador filosofia e filosofvinha. Mostrar todas as postagens
quarta-feira, 9 de junho de 2010
quinta-feira, 18 de março de 2010
POTENCIALISMO
é a nova onda. tendência. must be. é o novo novíssimo.
a gente quer ser tudo ao mesmo tempo agora. a gente quer de tudo um monte. a gente quer reinventar a roda todo dia e ganhar créditos. a gente se leva a sério demais. a gente quer sucesso. a gente não sabe parar quieto. a gente é um saco.
potencialismo
potencialismo
potencialismo
estou escrevendo e re-escrevendo essa palavra aqui no blog pra ver se eu viro recorde de hits no google. eu. eu. eu. potencialista - psicóloga - blogueira - recordista em hits. desenvolvida. sucesso. comunicadora, cidadã do mundo. pluriapaixonada. imortal da wikipedia!
como se essa merda toda fizesse alguma diferença.
.
a gente quer ser tudo ao mesmo tempo agora. a gente quer de tudo um monte. a gente quer reinventar a roda todo dia e ganhar créditos. a gente se leva a sério demais. a gente quer sucesso. a gente não sabe parar quieto. a gente é um saco.
potencialismo
potencialismo
potencialismo
estou escrevendo e re-escrevendo essa palavra aqui no blog pra ver se eu viro recorde de hits no google. eu. eu. eu. potencialista - psicóloga - blogueira - recordista em hits. desenvolvida. sucesso. comunicadora, cidadã do mundo. pluriapaixonada. imortal da wikipedia!
como se essa merda toda fizesse alguma diferença.
.
domingo, 31 de maio de 2009
beleza, magreza e tititi
e se a gente vivesse só entre coisas mundanas e leves? por quanto tempo é possível? será que ia ter uma hora que ia faltar sentido?
será que não era o caso de simplificar isso tudo e esvaziar de vez o sentido das coisas? vai passar mesmo. pra que tentar driblar a nossa insignificância e nossa impermanência como se elas não fossem o que temos de mais certo e legítimo?
tanta energia disperdiçada tentando fazer diferença nesse mundo. não é a toa que eu me sinto sempre tão cansada. e no final das contas, na big picture, a verdade é que tanto faz.
no fundo é só o jeito que a gente escolhe gastar o tempo que a gente vai passar aqui. a gente pode ficar tentando ler os mistérios das entrelinhas ou a gente pode assumir que o que tem pra ser entendido está bem claro e diante do nosso nariz. que é mais ou menos o mesmo que dizer que metafísica é coisa pra quem 'não sacou'.
.
será que não era o caso de simplificar isso tudo e esvaziar de vez o sentido das coisas? vai passar mesmo. pra que tentar driblar a nossa insignificância e nossa impermanência como se elas não fossem o que temos de mais certo e legítimo?
tanta energia disperdiçada tentando fazer diferença nesse mundo. não é a toa que eu me sinto sempre tão cansada. e no final das contas, na big picture, a verdade é que tanto faz.
no fundo é só o jeito que a gente escolhe gastar o tempo que a gente vai passar aqui. a gente pode ficar tentando ler os mistérios das entrelinhas ou a gente pode assumir que o que tem pra ser entendido está bem claro e diante do nosso nariz. que é mais ou menos o mesmo que dizer que metafísica é coisa pra quem 'não sacou'.
.
quarta-feira, 20 de maio de 2009
a vontade das coisas
tem algumas coisas que só acontecem quando elas querem.
pra algumas coisas até dá pra facilitar uma situação, tentar influenciar, ou mesmo forçar a barra. mas há outras coisas que absolutamente não dependem de nós, do nosso desejo, nem do nosso esforço. elas tem vontade própria.
assim é um texto, um insight, uma resolução, o amadurecimento.
não adianta olhar bem sério pra uma plantinha e gritar algo do tipo: "você tem que crescer agora, porra!"
além de inútil, fica ridículo.
.
pra algumas coisas até dá pra facilitar uma situação, tentar influenciar, ou mesmo forçar a barra. mas há outras coisas que absolutamente não dependem de nós, do nosso desejo, nem do nosso esforço. elas tem vontade própria.
assim é um texto, um insight, uma resolução, o amadurecimento.
não adianta olhar bem sério pra uma plantinha e gritar algo do tipo: "você tem que crescer agora, porra!"
além de inútil, fica ridículo.
.
sexta-feira, 13 de março de 2009
Chronos, lógico!
Chronos é o Tempo. O Tempo medido. O Tempo que é marcado pelo bater do tic-tac do relógio.
Só que o Tempo pode ser um cara muito inconstante. Tudo depende, veja bem, não seja tão rígido! Nada é assim, preto no branco. É um grande pantone de tons de cinza.
O Tempo pode ser um prestador de serviços dos mais picaretas que há: olha pra cara do freguês e decide na hora o preço que vai cobrar. Não tem como a gente saber de antemão quanto tempo efetivamente ele vai cobrar da gente.
O Tempo às vezes opera o nosso tempo numa grande bolsa de valores que sobe ou desce de acordo com a nossa aflição.
Um expediente de segunda feira dura 30 horas.
Um sábado tem só 9 horas.
Uma hora de terapia acaba em 5 minutos.
Meia hora de sono equivale a quase 1 segundo.
Uma semana sozinha leva um ano pra passar.
...
E assim os gregos descobriram kairós, que não é tempo chronos - com seu ritmo lógico e sequencial do passar dos anos. Kairós é o tempo daquilo que a gente vive. Bate em tum-tu-tum junto com o coração.
.
Só que o Tempo pode ser um cara muito inconstante. Tudo depende, veja bem, não seja tão rígido! Nada é assim, preto no branco. É um grande pantone de tons de cinza.
O Tempo pode ser um prestador de serviços dos mais picaretas que há: olha pra cara do freguês e decide na hora o preço que vai cobrar. Não tem como a gente saber de antemão quanto tempo efetivamente ele vai cobrar da gente.
O Tempo às vezes opera o nosso tempo numa grande bolsa de valores que sobe ou desce de acordo com a nossa aflição.
Um expediente de segunda feira dura 30 horas.
Um sábado tem só 9 horas.
Uma hora de terapia acaba em 5 minutos.
Meia hora de sono equivale a quase 1 segundo.
Uma semana sozinha leva um ano pra passar.
...
E assim os gregos descobriram kairós, que não é tempo chronos - com seu ritmo lógico e sequencial do passar dos anos. Kairós é o tempo daquilo que a gente vive. Bate em tum-tu-tum junto com o coração. .
segunda-feira, 9 de março de 2009
Anna Scott, Notting Hill
Sobre a capacidade do cinema de representar as questões existenciais, eu já postei o meu personagem + cena número 1: o anjo do Nicholas Cage no momento em que cai no mundo (Cidade dos Anjos, remake do Asas do Desejo).
Como esta, há outras cenas que me levam pro looping recursivo infinito de pensar na vida. O que, aliás, eu faço o tempo todo, como se não houvesse outra coisa a se fazer no mundo.
Eis meu personagem emblemático + cena número 2: a atriz interpretada pela Julia Roberts no filme Notting Hill. É uma cena tão singela quanto genial que expressa a vulnerabilidade humana, aqui representada pela entrega despida de quem se declara pra pessoa amada.
A super rica, famosa, hollywoodiana, linda e espetacular atriz Anna Scott vai até a livraria do rapaz comum, interpretado pelo Hugh Grant. Ela leva um presente de valor inestimável, que ele não poderia comprar nem que trabalhasse a vida toda. Ela entrega pra ele uma gravura original do Chagall porque lembrou-se que ele gostava. Ele fica estupefato, mas não quer parecer deslumbrado, então resolve play cool e acaba não mostrando o quanto apreciou o gesto.
Ela fala que gostaria de vê-lo de novo. E com isso ela diz que sabe que as vidas deles são muito diferentes e que isso gera desconforto. E que por mais que a ela parecesse certo levar a história adiante, ela sabia que seria um esforço grande. Algo que só se pode aceitar, mas nunca se pode pedir.
Ele, o rapaz comum, se sente intimidado com o tanto que ele próprio acha tudo 'inacessível'. Acaba apenas concordando que aquela história seria muito difícil e não se oferece pra tentar.
Ela engole as lágrimas a seco e diz pra ele que não importa o dinheiro que ela tenha ou a fama e glamour que ela represente. Que alí ela é apenas uma garota pedindo a um rapaz que goste dela.
''I'm just a girl, standing in front of a boy, asking him to love her''.
O choro sufoca porque ela se dá conta de que tudo que se agrega de valor na vida é só uma casquinha. Querer alguém é despir-se de tudo e ficar a mercê do outro. Totalmente vulnerável.
Ao mostrar o seu querer você se expõe, apostando que seu sentimento seja acolhido e se transforme na maravilha do 'encontro'. Mas correndo o risco de uma dor tão dura que abala nossa vontade de sobreviver. Que é a dor de quem entrega seu coração de presente e o outro, por qualquer que seja a razão, não aceita.
.
Como esta, há outras cenas que me levam pro looping recursivo infinito de pensar na vida. O que, aliás, eu faço o tempo todo, como se não houvesse outra coisa a se fazer no mundo.
Eis meu personagem emblemático + cena número 2: a atriz interpretada pela Julia Roberts no filme Notting Hill. É uma cena tão singela quanto genial que expressa a vulnerabilidade humana, aqui representada pela entrega despida de quem se declara pra pessoa amada.
A super rica, famosa, hollywoodiana, linda e espetacular atriz Anna Scott vai até a livraria do rapaz comum, interpretado pelo Hugh Grant. Ela leva um presente de valor inestimável, que ele não poderia comprar nem que trabalhasse a vida toda. Ela entrega pra ele uma gravura original do Chagall porque lembrou-se que ele gostava. Ele fica estupefato, mas não quer parecer deslumbrado, então resolve play cool e acaba não mostrando o quanto apreciou o gesto.
Ela fala que gostaria de vê-lo de novo. E com isso ela diz que sabe que as vidas deles são muito diferentes e que isso gera desconforto. E que por mais que a ela parecesse certo levar a história adiante, ela sabia que seria um esforço grande. Algo que só se pode aceitar, mas nunca se pode pedir.
Ele, o rapaz comum, se sente intimidado com o tanto que ele próprio acha tudo 'inacessível'. Acaba apenas concordando que aquela história seria muito difícil e não se oferece pra tentar.Ela engole as lágrimas a seco e diz pra ele que não importa o dinheiro que ela tenha ou a fama e glamour que ela represente. Que alí ela é apenas uma garota pedindo a um rapaz que goste dela.
''I'm just a girl, standing in front of a boy, asking him to love her''.
O choro sufoca porque ela se dá conta de que tudo que se agrega de valor na vida é só uma casquinha. Querer alguém é despir-se de tudo e ficar a mercê do outro. Totalmente vulnerável.
Ao mostrar o seu querer você se expõe, apostando que seu sentimento seja acolhido e se transforme na maravilha do 'encontro'. Mas correndo o risco de uma dor tão dura que abala nossa vontade de sobreviver. Que é a dor de quem entrega seu coração de presente e o outro, por qualquer que seja a razão, não aceita.
.
quarta-feira, 4 de março de 2009
o corredor X a salinha
sabe o que que era época boa? mas boa meeeesmo?
era a fase que eu e meus amigos estávamos no começo da carreira. ninguém ainda tinha dado certo na vida, mas existia uma certa esperança e uma certa chance de que a gente ia virar alguma coisa. estávamos semi-encaminhados, mas lá no final da cadeia alimentar, por assim dizer.
todo mundo meio em cargos de peão, ocupando o espaço do corredor, mas cheios de gás, cheios de idéias. e de brilho. a gente tinha que por a mão na massa, trabalhar pra valer, às vezes tinha algum pepino que só a gente sabia resolver. principalmente se era alguma coisa no computador. logo eu! a estagiária recém-formada era obrigada a passar a noite refazendo o trabalho deles porque nenhum dos fodidões sabia nada! na-da! só tinha mané naquele lugar...
foram várias altas horas fazendo trabalho braçal. mas sem muita responsabilidade. sem ter que decidir nada. só cumprindo as ordens que vinham do cara lá da salinha. ah! que longos cafés a gente tomava naquele corredor reclamando que alguém tinha dado tanta coisa pra gente fazer! o que que eles estavam pensando? por que não decidiu antes que era pra fazer do jeito B e pediu o jeito A? sabe come é chefe, né? chegou lá por pura politicagem, mas é uma anta.
só que naquela época, quando a gente ia pra casa, não levava nenhuma preocupação. a gente era feliz e quase não sabia que era depois do trabalho no corredor que a vida mostrava seu lado mais doce: sentar no bar com todo mundo e reclamar de o quanto o mundo era injusto por a gente não ter a grana e o tipo de trabalho que merecia! na boa, fora a gente, só tinha imbecil no mundo! a gente era a promessa. a solução. a genialidade bruta e incompreendida.
a gente passava noites e noites juntos no bar, inconformados com a incompetência e a mediocridade dos nossos chefes. se quem manda não fosse tão medíocre, nosso talento já teria sido revelado! é que aqueles adultos, sentados nas suas salinhas, insistiam em fazer tudo errado. não sabiam nem usar o excel e vinham mandar a gente, que estava naquela mesinha improvisada no corredor, refazer todo o trabalho que eles mesmos tinham pedido. e nem falavam inglês direito! como é que um despreparado desses virava chefe? a gente não entendia.
até que um dia a gente ganhou uma salinha qualquer, um crachá escrito aspone, um pouco mais de grana e muito, mas muito mais responsabilidade. e o compromisso de fazer acontecer no mundo real, nem que tivesse que ser medíocre. a gente aprendeu que o que funciona é o arroz com feijão, desde que seja no prazo e dentro dos critérios estabelecidos.
e em troca a gente abriu mão da nossa cabeça fresca no final de semana, do nosso tempo livre pra tomar longos cafés ou infinitas cervejinhas no bar. e quer saber o pior de tudo? a gente teve que abrir mão de talvez ser genial. e teve que parar de ficar só reclamando pelos corredores. o mundo não é justo mesmo.
.
era a fase que eu e meus amigos estávamos no começo da carreira. ninguém ainda tinha dado certo na vida, mas existia uma certa esperança e uma certa chance de que a gente ia virar alguma coisa. estávamos semi-encaminhados, mas lá no final da cadeia alimentar, por assim dizer.
todo mundo meio em cargos de peão, ocupando o espaço do corredor, mas cheios de gás, cheios de idéias. e de brilho. a gente tinha que por a mão na massa, trabalhar pra valer, às vezes tinha algum pepino que só a gente sabia resolver. principalmente se era alguma coisa no computador. logo eu! a estagiária recém-formada era obrigada a passar a noite refazendo o trabalho deles porque nenhum dos fodidões sabia nada! na-da! só tinha mané naquele lugar...foram várias altas horas fazendo trabalho braçal. mas sem muita responsabilidade. sem ter que decidir nada. só cumprindo as ordens que vinham do cara lá da salinha. ah! que longos cafés a gente tomava naquele corredor reclamando que alguém tinha dado tanta coisa pra gente fazer! o que que eles estavam pensando? por que não decidiu antes que era pra fazer do jeito B e pediu o jeito A? sabe come é chefe, né? chegou lá por pura politicagem, mas é uma anta.
só que naquela época, quando a gente ia pra casa, não levava nenhuma preocupação. a gente era feliz e quase não sabia que era depois do trabalho no corredor que a vida mostrava seu lado mais doce: sentar no bar com todo mundo e reclamar de o quanto o mundo era injusto por a gente não ter a grana e o tipo de trabalho que merecia! na boa, fora a gente, só tinha imbecil no mundo! a gente era a promessa. a solução. a genialidade bruta e incompreendida.
a gente passava noites e noites juntos no bar, inconformados com a incompetência e a mediocridade dos nossos chefes. se quem manda não fosse tão medíocre, nosso talento já teria sido revelado! é que aqueles adultos, sentados nas suas salinhas, insistiam em fazer tudo errado. não sabiam nem usar o excel e vinham mandar a gente, que estava naquela mesinha improvisada no corredor, refazer todo o trabalho que eles mesmos tinham pedido. e nem falavam inglês direito! como é que um despreparado desses virava chefe? a gente não entendia.
até que um dia a gente ganhou uma salinha qualquer, um crachá escrito aspone, um pouco mais de grana e muito, mas muito mais responsabilidade. e o compromisso de fazer acontecer no mundo real, nem que tivesse que ser medíocre. a gente aprendeu que o que funciona é o arroz com feijão, desde que seja no prazo e dentro dos critérios estabelecidos.
e em troca a gente abriu mão da nossa cabeça fresca no final de semana, do nosso tempo livre pra tomar longos cafés ou infinitas cervejinhas no bar. e quer saber o pior de tudo? a gente teve que abrir mão de talvez ser genial. e teve que parar de ficar só reclamando pelos corredores. o mundo não é justo mesmo.
.
terça-feira, 3 de março de 2009
acho que eu tenho quase certeza absoluta
ou eu não poderia ser uma covre com certeza talvez
Tenho uma amiga que tem um gosto particular por saber a verdade por trás de tudo. Tinha que ser cientista, né? A gente estava no País Basco, num pueblito maravilhoso, todo lindinho, florido, europeuzinho, com gente simpática, bicicletas, igrejinhas. Um dia eu acordo e ela já está vestida, pronta pra sair:
-Vou 'desmascarar' essa cidade!
- Hein?
- É. Vou andar nas ruas laterais, vou chegar na periferia! Isso aqui tá tudo muito certinho. Só pode ser de mentira!
Na época eu achei muito engraçado e não dei muita trela. Uns tempos depois entendi que essa inquietação dela também me aflige. E que o negócio é muito mais sério do que parece. E se manifesta de várias formas. O que essas expressões de aflição têm em comum é o maldito assunto recorrente da minha cabeça nos últimos tempos: eu questiono tudo, duvido de tudo e não tenho nunca certeza de nada.
É sempre essa mesma mania. Se está muito arrumado quero saber se funciona na bagunça. Se está muito quieto quero saber se vai suportar quando houver barulho. Se está muito bom quero saber o que vai acontecer quando ficar ruim.
Que ódio dessa insuportável consciência de que tudo muda e de que nada é só bom ou só mau. Seria tão mais fácil classificar as coisas em certo e errado e apagar os tons de cinza!
Sem falar na insanidade que é ter que conviver com a relatividade histórica das coisas! Já reparou que nunca dá pra saber se algo aconteceu para melhor ou para pior? Sabe a perna quebrada que te impede de jogar no campeonato da escola e mais pra frente te deixa pra fora do time da cidade e depois ainda te deixa fora das olimpíadas, mas que no fim foi o que te tirou daquele avião de atletas que caiu e matou todo mundo?
O que eu queria mesmo era ter certeza que o que parece a melhor escolha hoje não vai virar a pior estupidez da minha vida amanhã.
Dá muito trabalho viver nessa vida de ponderações, entretantos e poréns. Affff...
Tenho uma amiga que tem um gosto particular por saber a verdade por trás de tudo. Tinha que ser cientista, né? A gente estava no País Basco, num pueblito maravilhoso, todo lindinho, florido, europeuzinho, com gente simpática, bicicletas, igrejinhas. Um dia eu acordo e ela já está vestida, pronta pra sair:
-Vou 'desmascarar' essa cidade!
- Hein?
- É. Vou andar nas ruas laterais, vou chegar na periferia! Isso aqui tá tudo muito certinho. Só pode ser de mentira!
Na época eu achei muito engraçado e não dei muita trela. Uns tempos depois entendi que essa inquietação dela também me aflige. E que o negócio é muito mais sério do que parece. E se manifesta de várias formas. O que essas expressões de aflição têm em comum é o maldito assunto recorrente da minha cabeça nos últimos tempos: eu questiono tudo, duvido de tudo e não tenho nunca certeza de nada.
É sempre essa mesma mania. Se está muito arrumado quero saber se funciona na bagunça. Se está muito quieto quero saber se vai suportar quando houver barulho. Se está muito bom quero saber o que vai acontecer quando ficar ruim.
Que ódio dessa insuportável consciência de que tudo muda e de que nada é só bom ou só mau. Seria tão mais fácil classificar as coisas em certo e errado e apagar os tons de cinza!
Sem falar na insanidade que é ter que conviver com a relatividade histórica das coisas! Já reparou que nunca dá pra saber se algo aconteceu para melhor ou para pior? Sabe a perna quebrada que te impede de jogar no campeonato da escola e mais pra frente te deixa pra fora do time da cidade e depois ainda te deixa fora das olimpíadas, mas que no fim foi o que te tirou daquele avião de atletas que caiu e matou todo mundo?
O que eu queria mesmo era ter certeza que o que parece a melhor escolha hoje não vai virar a pior estupidez da minha vida amanhã.
Dá muito trabalho viver nessa vida de ponderações, entretantos e poréns. Affff...
it ain't over 'till it's over. you'll never know...
.
.
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
Cair no Mundo
Tem um personagem que me comove de arrepiar e dar nó na garaganta por ser uma metáfora quase que literal do ser-no-mundo (ou dasain, pra filosofar em alemão). É o anjo do Nic Cage no remake do Win Wenders, que no original tem a trapesista do circo e o Peter Falk.
Quando a gente se dá conta que a vida é de graça e é dada, e que o jeito de viver a vida é uma escolha, a gente pode escolher viver de verdade e cair de cabeça em tudo mesmo sem ser perfeito e sentir tudo que vier sem se esconder.
Daí é que a gente cai no mundo.
O anjo do filme é protegido do tormento dos sentimentos humanos e vive em paz. Mas escolhe que pela chance de amar e sentir alegria, vale a pena até mesmo a certeza de que um dia vai sofrer.
O anjo escolhe ser humano e cai no mundo. Literalmente. E se espatifa no chão e fica todo machucado e doendo e feliz da vida porque está sentindo. Caído no mundo descobre que sentir é tão bom mesmo quando dói.

Fiquei aqui pensando que os caras que inventaram os idiomas devem ter levado isso tudo em conta quando decidiram que se apaixonar ia chamar 'fall in love'.
.
Quando a gente se dá conta que a vida é de graça e é dada, e que o jeito de viver a vida é uma escolha, a gente pode escolher viver de verdade e cair de cabeça em tudo mesmo sem ser perfeito e sentir tudo que vier sem se esconder.
Daí é que a gente cai no mundo.
O anjo do filme é protegido do tormento dos sentimentos humanos e vive em paz. Mas escolhe que pela chance de amar e sentir alegria, vale a pena até mesmo a certeza de que um dia vai sofrer.
O anjo escolhe ser humano e cai no mundo. Literalmente. E se espatifa no chão e fica todo machucado e doendo e feliz da vida porque está sentindo. Caído no mundo descobre que sentir é tão bom mesmo quando dói.

Fiquei aqui pensando que os caras que inventaram os idiomas devem ter levado isso tudo em conta quando decidiram que se apaixonar ia chamar 'fall in love'.
.
Marcadores:
amor,
blog is the new divã,
cinema,
dois mil e love,
filosofia e filosofvinha
sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
Amores, isqueiros e a vida
ou "Que não seja imortal, posto que é chama..."
ou "Um BIC acende 3000 vezes. Ou mais."
Fui tomar uma café no intervalo do consultório. Sentei numa das mesinhas externas e, fazendo uma das minhas grosserias preferidas, fiquei ouvindo a conversa de duas mulheres. Quarenta e tantos, cinquenta e poucos anos. Uma era viúva há um tempo, a outra recém-separada.
É claro: falavam dos seus homens. Não sei do que morreu o primeiro, mas foi jovem. O segundo saiu de casa e foi morar com uma moça do escritório. Bla, bla, bla. Difícil viver com eles, triste viver sem eles. Os últimos dois anos com ele foram os piores. Os primeiros anos depois que ele morreu foram os piores. Foi bom enquanto durou. Eu faria tudo de novo. Bla, bla, bla.
Fui acender um cigarro e vi que meu isqueiro tinha acabado. Queimou tudo que tinha pra queimar. É raro acontecer isso, não? Isqueiro é uma coisa que se perde. Ou alguém enfia no bolso e rouba ele de você antes que ele acabe. Perdeu um rosa. Apareceu um branco. Sumiu o branco. Comprou um laranja. E assim vai.
É claro: fiquei pensando sobre a vida da gente. Sobre a implacável impermanência de tudo que passa na vida da gente. Tem coisas que queimam até o final e acabam. Tem coisas que ainda podiam queimar mais um pouquinho, mas a gente acaba perdendo. Ou alguém põe no bolso e leva embora.
.
ou "Um BIC acende 3000 vezes. Ou mais."
Fui tomar uma café no intervalo do consultório. Sentei numa das mesinhas externas e, fazendo uma das minhas grosserias preferidas, fiquei ouvindo a conversa de duas mulheres. Quarenta e tantos, cinquenta e poucos anos. Uma era viúva há um tempo, a outra recém-separada.
É claro: falavam dos seus homens. Não sei do que morreu o primeiro, mas foi jovem. O segundo saiu de casa e foi morar com uma moça do escritório. Bla, bla, bla. Difícil viver com eles, triste viver sem eles. Os últimos dois anos com ele foram os piores. Os primeiros anos depois que ele morreu foram os piores. Foi bom enquanto durou. Eu faria tudo de novo. Bla, bla, bla.
Fui acender um cigarro e vi que meu isqueiro tinha acabado. Queimou tudo que tinha pra queimar. É raro acontecer isso, não? Isqueiro é uma coisa que se perde. Ou alguém enfia no bolso e rouba ele de você antes que ele acabe. Perdeu um rosa. Apareceu um branco. Sumiu o branco. Comprou um laranja. E assim vai.
É claro: fiquei pensando sobre a vida da gente. Sobre a implacável impermanência de tudo que passa na vida da gente. Tem coisas que queimam até o final e acabam. Tem coisas que ainda podiam queimar mais um pouquinho, mas a gente acaba perdendo. Ou alguém põe no bolso e leva embora.
.
quarta-feira, 21 de janeiro de 2009
O Corvo
Meu amigo estava falando que gosta de filmes que não explicam demais as coisas. Gosta de idéias soltas no final pra gente poder imaginar o que vem depois.
Eu fiquei pensando que eu também gosto de imaginar o que vem depois. Mas que tem outra coisa que eu gosto muito, que é quando o final é mesmo quando tudo acaba. Como num conto-de-fadas.
A gente não fica imaginado nada que vem depois, mas tem a chance de ir e vir mil vezes no looping recursivo infinito da história. É como um poema, que não pode ser falado em outras palavras. Tem que usar aquelas mesmas, sempre daquele jeito. E daí a gente pára pra ficar saboreando uma ou outra idéia. E cada vez a gente pára onde a gente quer ou onde a gente precisa.
O Edgar Allan Poe escreveu um poema sensacional, que o ainda mais sensacional Fernando Pessoa traduziu para o português com o nome O Corvo. É lindo de morrer. De morrer mesmo. E tem atmosfera de fantasia, de história mágica. E eu gosto também por causa do título, porque algumas pessoas que eu gosto me chamam de corvo por causa do meu mau humor, mas isso é outra história.
.
O fato é que hoje fui reler original e versão. Caí no vai e volta da história que acaba mas deixa a gente pensando nela. Hoje a historinha na minha cabeça ficou mais ou menos assim:
"O cara está sofrendo de abandono quietinho no canto dele. Ouve um barulho na janela e, após a insistência, deixa entrar o corvo. A presença da ave se impõe, e mesmo sombria aplaca-lhe a solidão. Pra daqui a pouco lhe incomodar. E mais pra frente só lhe servir de lembrança de que só a solidão é perene. O que passou não volta. Nunca mais."
O bichinho ronda e faz sombras longas no chão. Fica ali para lembrá-lo: nunca mais! E cutuca-lhe a ferida. O pobre foi deixar entrar o corvo ao invés de aprender de uma vez por todas que acompanhado a gente fica, mas sozinho a gente é.
.
Assinar:
Postagens (Atom)