Quando era pequena espiava a irmã mais velha no portão. Ela deu um demorado na boca do Dudu! Foi contar pra mãe, um pouco admirada, um pouco ciumenta. Ela não achava justo que isso fosse coisa só de gente grande.
Treinava no espelho, um olho fechado o outro não. Tinha visto na novela que eles balançavam a cabeça pra lá e pra cá. Era meio engraçado porque as vezes parecia que o nariz ia atrapalhar, mas eles sempre davam um jeito. Gostava de passar o batom da mãe. Deixava as marquinhas nos bilhetes que fazia pra avó e escrevia ‘smack’ do lado. Igual nas revistinhas da Mônica. O barulho era assim.
Parecia que seu dia já estava chegando, pelo rumo que as coisas tinham tomado. Ela pensava como será que ia ser, por causa do aparelho nos dentes. Será que eu tiro na hora ou já saio de casa sem? Minha mãe vai desconfiar. Saiu em silêncio pra ninguém ver. Encontrou com o menino na piscina, ouvindo Lulu Santos. Quis evitar seus olhos, mas não pude reagir... Voltou pra casa com cara de culpada, ainda bem que já estava todo mundo dormindo.
Não pregou o olho naquela noite. E nem em muitas outras. Ficava repassando o filminho na cabeça. Desde então vem confirmando sua teoria de que não existe coisa melhor nessa vida.
Feliz Dia do Beijo pra todo mundo!
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terça-feira, 13 de abril de 2010
quarta-feira, 17 de março de 2010
amnésia: esquecimento e lembranças
A amnésia que eu vejo em meus pacientes após um acidente cerebral, na maior parte das vezes, pouco se parece com a síndrome retratada em Hollywood. O cinema em geral mostra casos de pessoas que esqueceram tudo o que já viveram: 'Onde estou?', 'Quem sou?'. Essa é a amnésia retrógrada - apaga tudo dalí pra trás.
Isso aí até existe, mas a amnésia mais comum é aquela igual a da peixinha Dori, do filme 'Procurando Nemo': ela é inteligente, sabe quem é, lembra coisas do passado, mas não consegue guardar coisas da história atual; é um problema de memória recente. Essa se chama amnésia anterógrada.
E é isso que acontece com os meus pacientes: desde que tiveram um acidente eles tem um defeito no registro de novas informações. Então, eles se lembram em geral muito bem de tudo que ocorreu antes do acidente (salvo um apagão de logo antes e logo depois da doença em si), mas não conseguem formar novas memórias de forma eficiente. Assim, a vida desde o acidente vira um amontoado de fatos e informações meio isoladas, desorganizadas cronologicamente. E muita coisa nem sequer amontoa. Apaga mesmo e é como se nunca tivesse acontecido.
Os casos de amnésia anterógrada total existem, mas são raros: é como se a pessoa tivesse parado em um certo dia ou ano de sua vida, e não aprende mais informações desde então. Fica parada em uma época, sem registro de que coisas acontecem e de que o tempo passa. O caso mais famoso dessa patologia foi o paciente HM, de quem eu falei aqui nesse post de 2008, quando ele morreu.
A amnésia anterógrada mais comum, entretanto, não é total. A mais típica é, de novo, muito bem retratada na peixinha Dori que consegue aprender algumas coisas mas não outras. O que ela usa e repete toda hora se fixa de uma forma um pouco melhor, mas o que não usa ou não chama muito a atenção se apaga.
E daí se mostra um fenômeno muito legal, pois apesar de ser frequente também entre as pessoas normais, ele é muito mais acentuado, quase caricato, entre as pessoas amnésicas: é o poder de fixação da memória emocional.
Todo mundo lembra melhor do que interessa, certo? Mas pra essas pessoas não é uma questão de lembrar melhor. Funciona mais como: eu só me lembro do que tem muito valor emocional, ou porque me interessa muito, ou porque me assustou, ou porque eu detestei. Dessa forma, a vida dos amnésicos acaba se orientando por aquilo que é rotineiro e se repete exatamente igual todo dia e fora isso há uma coleção de eventos marcantes. O resto vai e vem no amontoado de eventos desordenados no tempo.
Tudo isso pra contar que acabei de conhecer um homem de 60 anos que sofreu um acidente de carro aos 20. O impacto cerebral foi gravíssimo e ele ficou bem amnésico, assim desse jeitinho mais comum da gente ver: amnésia anterógrada importante mas não total. E isso faz parte da vida dele há 40 anos!
Nesse tempo (dos 20 aos 60 anos) ele teve muita ajuda da familia e amigos e realmente conseguiu uma vida plena: terminou a faculdade, trabalhou, namorou, casou, teve 2 filhos, fez amigos, viajou, enterrou pessoas queridas, viu governos entrarem e saírem, viu filmagens e re-filmagens no cinema e nas novelas da Globo, viu o homem pisar na lua, viu o muro de Berlim cair, viu guerras no mundo, tecnologia, internet, revoluções sociais, mudanças de comportamento, o vai e vem das calças boca de sino e dos carros da Volkswagen.
Na consulta de hoje, como eu costumo fazer com meus pacientes, eu risquei uma linha em uma folha, coloquei o ano de seu nascimento em um extremo e o ano atual no outro, e pedi para que ele apontasse os fatos e eventos que mais o marcaram na vida. Não foi muita surpresa o que aconteceu: até a data do acidente ele marcou mortes, entradas e saídas nas escolas, viagens e o próprio desastre de carro. De lá pra frente, ele marcou sua vida em namoradas, paixões não-correspondidas, uniões e separações. Depois de eu insistir um pouco ele conseguiu fazer umas contas e marcou também o ano de nascimento dos filhos.
Nenhuma só palavra sobre trabalho, perrengues diários, desavenças, pequenos triunfos, grandes feitos, doenças, mortes, nada! Só amores e desamores. Foi isso que sua memória parca selecionou como importante pra ser guardado apesar da deficiência.
Fiquei aqui pensando: da vida a gente não leva nada. E mesmo em vida a gente devia carregar só o que realmente importa...
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Isso aí até existe, mas a amnésia mais comum é aquela igual a da peixinha Dori, do filme 'Procurando Nemo': ela é inteligente, sabe quem é, lembra coisas do passado, mas não consegue guardar coisas da história atual; é um problema de memória recente. Essa se chama amnésia anterógrada.
E é isso que acontece com os meus pacientes: desde que tiveram um acidente eles tem um defeito no registro de novas informações. Então, eles se lembram em geral muito bem de tudo que ocorreu antes do acidente (salvo um apagão de logo antes e logo depois da doença em si), mas não conseguem formar novas memórias de forma eficiente. Assim, a vida desde o acidente vira um amontoado de fatos e informações meio isoladas, desorganizadas cronologicamente. E muita coisa nem sequer amontoa. Apaga mesmo e é como se nunca tivesse acontecido.
Os casos de amnésia anterógrada total existem, mas são raros: é como se a pessoa tivesse parado em um certo dia ou ano de sua vida, e não aprende mais informações desde então. Fica parada em uma época, sem registro de que coisas acontecem e de que o tempo passa. O caso mais famoso dessa patologia foi o paciente HM, de quem eu falei aqui nesse post de 2008, quando ele morreu.
A amnésia anterógrada mais comum, entretanto, não é total. A mais típica é, de novo, muito bem retratada na peixinha Dori que consegue aprender algumas coisas mas não outras. O que ela usa e repete toda hora se fixa de uma forma um pouco melhor, mas o que não usa ou não chama muito a atenção se apaga.
E daí se mostra um fenômeno muito legal, pois apesar de ser frequente também entre as pessoas normais, ele é muito mais acentuado, quase caricato, entre as pessoas amnésicas: é o poder de fixação da memória emocional.
Todo mundo lembra melhor do que interessa, certo? Mas pra essas pessoas não é uma questão de lembrar melhor. Funciona mais como: eu só me lembro do que tem muito valor emocional, ou porque me interessa muito, ou porque me assustou, ou porque eu detestei. Dessa forma, a vida dos amnésicos acaba se orientando por aquilo que é rotineiro e se repete exatamente igual todo dia e fora isso há uma coleção de eventos marcantes. O resto vai e vem no amontoado de eventos desordenados no tempo.
Tudo isso pra contar que acabei de conhecer um homem de 60 anos que sofreu um acidente de carro aos 20. O impacto cerebral foi gravíssimo e ele ficou bem amnésico, assim desse jeitinho mais comum da gente ver: amnésia anterógrada importante mas não total. E isso faz parte da vida dele há 40 anos!
Nesse tempo (dos 20 aos 60 anos) ele teve muita ajuda da familia e amigos e realmente conseguiu uma vida plena: terminou a faculdade, trabalhou, namorou, casou, teve 2 filhos, fez amigos, viajou, enterrou pessoas queridas, viu governos entrarem e saírem, viu filmagens e re-filmagens no cinema e nas novelas da Globo, viu o homem pisar na lua, viu o muro de Berlim cair, viu guerras no mundo, tecnologia, internet, revoluções sociais, mudanças de comportamento, o vai e vem das calças boca de sino e dos carros da Volkswagen.
Na consulta de hoje, como eu costumo fazer com meus pacientes, eu risquei uma linha em uma folha, coloquei o ano de seu nascimento em um extremo e o ano atual no outro, e pedi para que ele apontasse os fatos e eventos que mais o marcaram na vida. Não foi muita surpresa o que aconteceu: até a data do acidente ele marcou mortes, entradas e saídas nas escolas, viagens e o próprio desastre de carro. De lá pra frente, ele marcou sua vida em namoradas, paixões não-correspondidas, uniões e separações. Depois de eu insistir um pouco ele conseguiu fazer umas contas e marcou também o ano de nascimento dos filhos.
Nenhuma só palavra sobre trabalho, perrengues diários, desavenças, pequenos triunfos, grandes feitos, doenças, mortes, nada! Só amores e desamores. Foi isso que sua memória parca selecionou como importante pra ser guardado apesar da deficiência.
Fiquei aqui pensando: da vida a gente não leva nada. E mesmo em vida a gente devia carregar só o que realmente importa...
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segunda-feira, 2 de novembro de 2009
pão de ló com recheio de doce de leite
do que você tá falando? ah, das pequenas coisas. sabe aquelas que você nem notava que eram tão legais? as coisas do dia-a-dia, você quer dizer? é... mais ou menos. não é bem isso não. é tipo uma mania que você inventa junto com o outro e faz sempre a mesma coisa, e repete até quando ninguém mais lembra porque começou? que nem sair dum casamento levando um bem-casado na mão e 15 escondidos nos bolsos do terno e na bolsinha de festa. hahaha que exagero! pois é. só pela piada. no fim era a isabel que comia. a gente vivia tentando fazer dieta, sabe?

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domingo, 18 de outubro de 2009
da série: músicas que eu ouço mil vezes seguidas
adoro. mas que fique claro que a melhor versão ever dessa música era a do joe. bons tempos.
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sexta-feira, 21 de agosto de 2009
follow up
parte do meu tempo eu trabalho na universidade, por isso eu tenho que estudar e pesquisar sobre meu tema de interesse - no caso, o cérebro das pessoas.
por causa de uma dessas tais pesquisas, nesta semana eu tive que repassar o banco de dados de pacientes que foram atendidos desde 1998 (ano do meu ingresso na uni e da inauguração do serviço).
acabei me dando conta de que lembro de cada um dos pacientes que tive contato. só de olhar o nome. lembrei do rosto, da história, da família. sei que vai soar piegas, mas eu também lembrei de muita coisa que eu aprendi com vários deles: a primeira vez que entendi uma ressonância, o que é de fato uma amnésia, o quanto faz falta entender a piada, o valor de ter um sentimento validado por outra pessoa. infinitos insights e lições que me fizeram uma pessoa melhor e uma profissional menos inábil na hora de tratar os próximos que vieram.
entramos em contato com um grupo de pacientes pedindo que comparecessem novamente ao serviço para participar de um dos nossos novos trabalhos. os familiares de vários deles foram gentilíssimos e toparam nos ajudar, então terei o privilégio de revê-los em breve e saber como é que a vida vem caminhando. alguns estavam empregados e não teriam horário disponível. alguns não estavam dispostos a vir. um deles faleceu há 2 anos. a mãe de um outro faleceu há alguns meses, e como o pai trabalha o dia todo não teria quem o trouxesse. alguns não foram encontrados pois os telefones mudaram.
fiquei meio esquisita, coração apertado.
às vezes eu tenho medo da vida.
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por causa de uma dessas tais pesquisas, nesta semana eu tive que repassar o banco de dados de pacientes que foram atendidos desde 1998 (ano do meu ingresso na uni e da inauguração do serviço).
acabei me dando conta de que lembro de cada um dos pacientes que tive contato. só de olhar o nome. lembrei do rosto, da história, da família. sei que vai soar piegas, mas eu também lembrei de muita coisa que eu aprendi com vários deles: a primeira vez que entendi uma ressonância, o que é de fato uma amnésia, o quanto faz falta entender a piada, o valor de ter um sentimento validado por outra pessoa. infinitos insights e lições que me fizeram uma pessoa melhor e uma profissional menos inábil na hora de tratar os próximos que vieram.
entramos em contato com um grupo de pacientes pedindo que comparecessem novamente ao serviço para participar de um dos nossos novos trabalhos. os familiares de vários deles foram gentilíssimos e toparam nos ajudar, então terei o privilégio de revê-los em breve e saber como é que a vida vem caminhando. alguns estavam empregados e não teriam horário disponível. alguns não estavam dispostos a vir. um deles faleceu há 2 anos. a mãe de um outro faleceu há alguns meses, e como o pai trabalha o dia todo não teria quem o trouxesse. alguns não foram encontrados pois os telefones mudaram.
fiquei meio esquisita, coração apertado.
às vezes eu tenho medo da vida.
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domingo, 12 de julho de 2009
Até explicar que nariz de porco não é tomada...

Eu devia ter uns 4 anos quando perguntei pra minha mãe se podia enfiar um grampo nos buraquinhos da tomada. Ela disse que não, naturalmente, porque se eu fizesse aquilo eu levaria um choque.
Embora eu depreendesse que não devia lá ser muito boa coisa, 'choque' não constava do meu repertório. Na minha parca experiência de vida eu ainda não havia passado por isso e, desta forma, não podia avaliar se valia ou não a pena eu fazer aquilo que me parecia certo. O grampo tinha duas pontinhas de acabamento arredondado que pareciam encaixar tããão bem na tomada!
Desde cedo já ciente do medo de assumir responsabilidades sozinha, continuei insistindo no assunto por tempo suficiente para que minha mãe - pessoa incrível e que sempre quis apenas o meu bem - perdesse a paciência e desistisse de tentar me convencer pela teoria. "Então vai, filha. Faz o que você quiser... Mas tô te avisando que vai ser ruim!"
Bom. Não preciso contar com detalhes o que ocorreu a seguir. Basicamente foi: grampo, choque, choro, colo, consolo. "Xiu, xiu... passou, passou..."
Um só choque e vááárias lições aprendidas sobre como a vida funciona.
Eu lembrei dessa história recentemente quando fui comprar material para o rapaz instalar pontos de eletricidade a mais no meu consultório novo. Vocês sabiam que agora existe uma lei que regulamenta um novo formato para as tomadas brasileiras?
É isso mesmo. Não existe mais aquela tomadinha plana com os furinhos de focinho de porco! Agora todo o País deve adotar tomadas em formato hexagonal com um encaixe "recuado" tipo um degrauzinho. A parte de metal só encosta no buraquinho de energia depois que o plugue estiver inteiro dentro desse tal "degrau" da tomada. Ou seja: só entram os plugues que tenham exatamente aquele formato.
- Como assim? A troco de quê? "É para evitar que as pessoas tomem choque ao ligar ou desligar o plugue dos aparelhos", respondeu gentilmente o carinha da loja.
- Mas gente! Nenhum aparelho que eu tenho veio com esse plugue! Eu vou ter que usar adaptador ou trocar todos eles? "Pois é... tá todo mundo achando ruim. É capaz que nos próximos meses esse vai ser um assunto muito falado no Brasil".
Pois muito bem. Que fique registrada minha indignação! Então agora precisa de legislação pra proteger a população de levar um choque na tomada? Só faltava essa mesmo! Deixa o cidadão tomar o primeiro que logo aprende! Tenha dó, né...
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domingo, 28 de junho de 2009
moving (on)
achei um consultório novo no mesmo prédio de sempre. como não tinha me desfeito dos móveis do consultório anterior, acho que dá pra eles ficarem em ordem depois de uma reforma. por sorte achei minha agenda de 2000 e o telefone do tapeceiro não mudou. o mesmo número desde que ele reformou o sofá da nossa primeira casa da vida adulta - o apê de 42m2 no brooklin.
oliveira tapeceiro, na vila mascote. era uma portinha de garagem, agora expandiu o negócio, tem até página na internet. a gente sabia que esse cara ia prosperar. eficiente, caprichoso, preço justo. retira e entrega os móveis no local. hoje em dia aceita mastercard e divide sem juros em até 6 vezes. só que nesse caso o cliente tem que ir até lá pra passar o cartão. aí começa a viagem.
atravessei a cidade e o tempo neste sábado. voltei pra vila mascote depois de muitos anos. fora algumas mudanças por conta de merging and aquisitions das redes de supermercado, o bairro está praticamente igual. nunca achei que ia me emocionar com a avenida santa catarina e sua absoluta falta de glamour, mas acabei até chorando um pouquinho.
lembrei da vida inteira que eu passei alí com a minha família, nas 4 casas que a gente teve no mesmo bairro, 3 delas basicamente na mesma rua. eu lembrei de todo mundo alí comigo: meus pais, meus irmãos, meus amigos.
eu tinha a sensação de que minha casa ia sempre ser lá. mesmo que eu saísse, ia sempre pertencer àquele lugar.
só que nesse sábado eu vi que lá não sobrou nada mais. não sobrou ninguém. não tem lugar guardado pra mim. meus pais saíram do bairro, deixaram a cidade. assim como meu irmão, que está começando a família dele no rio de janeiro.
a vida de todos nós mudou tanto, e meu porto seguro ficou no passado. só tem lembranças pra eu visitar. não tem mais o meu canto esperando por mim.
a minha casa agora é aqui. e daqui eu só posso ir pra frente. não tenho mais pra onde voltar.
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oliveira tapeceiro, na vila mascote. era uma portinha de garagem, agora expandiu o negócio, tem até página na internet. a gente sabia que esse cara ia prosperar. eficiente, caprichoso, preço justo. retira e entrega os móveis no local. hoje em dia aceita mastercard e divide sem juros em até 6 vezes. só que nesse caso o cliente tem que ir até lá pra passar o cartão. aí começa a viagem.
atravessei a cidade e o tempo neste sábado. voltei pra vila mascote depois de muitos anos. fora algumas mudanças por conta de merging and aquisitions das redes de supermercado, o bairro está praticamente igual. nunca achei que ia me emocionar com a avenida santa catarina e sua absoluta falta de glamour, mas acabei até chorando um pouquinho.
lembrei da vida inteira que eu passei alí com a minha família, nas 4 casas que a gente teve no mesmo bairro, 3 delas basicamente na mesma rua. eu lembrei de todo mundo alí comigo: meus pais, meus irmãos, meus amigos.
eu tinha a sensação de que minha casa ia sempre ser lá. mesmo que eu saísse, ia sempre pertencer àquele lugar.
só que nesse sábado eu vi que lá não sobrou nada mais. não sobrou ninguém. não tem lugar guardado pra mim. meus pais saíram do bairro, deixaram a cidade. assim como meu irmão, que está começando a família dele no rio de janeiro.
a vida de todos nós mudou tanto, e meu porto seguro ficou no passado. só tem lembranças pra eu visitar. não tem mais o meu canto esperando por mim.
a minha casa agora é aqui. e daqui eu só posso ir pra frente. não tenho mais pra onde voltar.
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terça-feira, 16 de junho de 2009
Rasinho
Ele andava uns passos na frente dela. Ela demorava mais porque abaixava às vezes pra catar uma conchinha, se ela fosse daquele tipo do símbolo da Shell. Achei uma conchinha-shell! Como se aquilo importasse alguma coisa.
Ele dizia que catar uma concha-shell era o mesmo que comer um bolo-cake. Ela não estava nem aí, porque desde o colegial ela chamava pão-de-ló de bolo-cake mesmo. É um bolo de nada, não tem um sabor especial. É só bolo... bolo-cake. Ela lembrava da amiga de longa data que ria dessa bobagem junto com ela.
Ele brigava com o nó da fitinha do Bomfim. Quero tirar esse negócio. Fica caindo na comida. Não vou esperar dois anos pra essa porcaria arrebentar! Dá aqui que eu tiro. Mas assim não vai valer pra realizar seu pedido... porque você não amarra no pé? Eu já tenho você. Não quero pedir mais nada. E acho que essa fitinha no meu pé ia ficar meio gay. Nem vai rolar.
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Ele dizia que catar uma concha-shell era o mesmo que comer um bolo-cake. Ela não estava nem aí, porque desde o colegial ela chamava pão-de-ló de bolo-cake mesmo. É um bolo de nada, não tem um sabor especial. É só bolo... bolo-cake. Ela lembrava da amiga de longa data que ria dessa bobagem junto com ela.
Ele brigava com o nó da fitinha do Bomfim. Quero tirar esse negócio. Fica caindo na comida. Não vou esperar dois anos pra essa porcaria arrebentar! Dá aqui que eu tiro. Mas assim não vai valer pra realizar seu pedido... porque você não amarra no pé? Eu já tenho você. Não quero pedir mais nada. E acho que essa fitinha no meu pé ia ficar meio gay. Nem vai rolar.
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quinta-feira, 28 de maio de 2009
eu sei o que vocês fizeram no verão passado!
os caras estavam chapados, mataram alguém sem querer, ficaram com medinho de tomar bronca dos pais, daí se livraram do corpo e deram um jeito de fingir que nada aconteceu. vamos tocar a vida... mas um tempinho depois eis que surge um mardito que sabe de tudo e traz a lama toda de volta. tira a sujeira de baixo do tapete. pior não há.
agora você tá pensando: bom, eu nunca matei ninguém, não tenho nada pra esconder... ledo engano! todo mundo tem coisas tenebrosas escondidas no passado: pode não ser um cadáver, mas certamente rolou um aparelho ortodôntico de capacete, uma saia balonê na festa de debutante, uma vomitada no carro da mãe do amigo, uma incapacidade de aprender os exercícios de química, um bilhetinho de amor interceptado e lido em voz alta pela professora...
hoje recebi um email de um amigo querido da época de escola. achou alguém no orkut que achou outro alguém na pós-graduação, que achou outro alguém na escolinha do filho, que mantinha contato com outro alguém que tinha meu email. ele tá convidando o pessoal da escola pro aniversário dele. no final do email tem aquele labelzinho com o nome da pessoa, o logo da empresa, o telefone e o cargo: DIRETOR FINANCEIRO.
hahahahahahahaha! lembrei das várias tardes que a fetchi e eu passamos tentando fazer ele aprender a resolver equações de segundo grau! ele não era dos piores, mas matemática rendia muitas tardes de estudo coletivo lá em casa... e agora vem me falar que cuida do dinheiro dos outros?
bom, por via das dúvidas não vou revelar o nome dele. não que eu queira muito respeitar a privacidade do cara, mas vai que ele lembra de alguma coisa também, né?
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agora você tá pensando: bom, eu nunca matei ninguém, não tenho nada pra esconder... ledo engano! todo mundo tem coisas tenebrosas escondidas no passado: pode não ser um cadáver, mas certamente rolou um aparelho ortodôntico de capacete, uma saia balonê na festa de debutante, uma vomitada no carro da mãe do amigo, uma incapacidade de aprender os exercícios de química, um bilhetinho de amor interceptado e lido em voz alta pela professora...
hoje recebi um email de um amigo querido da época de escola. achou alguém no orkut que achou outro alguém na pós-graduação, que achou outro alguém na escolinha do filho, que mantinha contato com outro alguém que tinha meu email. ele tá convidando o pessoal da escola pro aniversário dele. no final do email tem aquele labelzinho com o nome da pessoa, o logo da empresa, o telefone e o cargo: DIRETOR FINANCEIRO.
hahahahahahahaha! lembrei das várias tardes que a fetchi e eu passamos tentando fazer ele aprender a resolver equações de segundo grau! ele não era dos piores, mas matemática rendia muitas tardes de estudo coletivo lá em casa... e agora vem me falar que cuida do dinheiro dos outros?
bom, por via das dúvidas não vou revelar o nome dele. não que eu queira muito respeitar a privacidade do cara, mas vai que ele lembra de alguma coisa também, né?
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sábado, 23 de maio de 2009
don't break my heart
e por falar em saudade, outro dia ouvi por acaso uma música que eu não ouvia há muito tempo. quando ela chegou aqui no brasil eu devia ter uns 14-15 anos. eu adorava porque era fácil de entender o inglês dele. e porque a música falava de amor e de dar presentinhos bobos e só querer a companhia de alguém.
só no ano de lançamento do disco eu devo ter me apaixonado e ficado de coração partido uma dúzia de vezes ao som dessa música. ai, ai...
You shoot me down in flames
you put me down a lot
I'm giving you my heart, go on take it.
Please be careful not to break it
just remember: It's the only one I've got.
It's the only one I've got.
Don't break my heart. Don't break my heart. Don't break my heart.
You make me laugh a lot and buy me silly things.
And I'd rather be with you than anyone else.
But if you make me mad. But if you make me mad.
You'll wish that you had not. You'll wish that you had not.
Don't break my heart. Don't break my heart. Don't break my heart.
Where are the roses and whispered sighs?
Where are the compliments and dreaming eyes?
It doesn't matter you see
I know you love me;
Real basic love never dies.
Don't break my heart. Don't break my heart. Don't break my heart.
Where are the roses and whispered sighs?
Don't break my heart. Don't break my heart. Don't break my heart.
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só no ano de lançamento do disco eu devo ter me apaixonado e ficado de coração partido uma dúzia de vezes ao som dessa música. ai, ai...
You shoot me down in flames
you put me down a lot
I'm giving you my heart, go on take it.
Please be careful not to break it
just remember: It's the only one I've got.
It's the only one I've got.
Don't break my heart. Don't break my heart. Don't break my heart.
You make me laugh a lot and buy me silly things.
And I'd rather be with you than anyone else.
But if you make me mad. But if you make me mad.
You'll wish that you had not. You'll wish that you had not.
Don't break my heart. Don't break my heart. Don't break my heart.
Where are the roses and whispered sighs?
Where are the compliments and dreaming eyes?
It doesn't matter you see
I know you love me;
Real basic love never dies.
Don't break my heart. Don't break my heart. Don't break my heart.
Where are the roses and whispered sighs?
Don't break my heart. Don't break my heart. Don't break my heart.
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sexta-feira, 8 de maio de 2009
Caramujo
Em 1996 eu montei meu primeiro consultório. Foi uma empreitada em conjunto com mais 6 pessoas, sendo que 2 delas (as únicas que não eram recém-formadas) pularam do barco menos de 1 (um) mês após assinarmos o contrato de aluguel, abrirmos a conta conjunta no banco, contratarmos a imensa reforma, etc e tal.
Mas tava tudo bem, porque a gente estava junto. Ninguém poderia escolher uma turma melhor pra começar a carreira. Sócias, amigas, irmãs. Foram anos de pindaíba coletiva, meses e meses no negativo, trabalhos braçais alternativos pra sustentar o CENPS (era assim que chamava o nosso Centro de Neuropsico).
Apesar de muito trabalho no hospital (não-remunerado) o consultório começou muito fraco e nossas contas eram absurdamente altas. Assim sendo, nosso dinheirinho de pagar as contas e as cervejas vinha da venda de mantas de algodão, trabalho no balcão da cafeteria, aula de balé, aulas de inglês, secretariagem da professora, baby sitting, monitoria de acampamento, rolo com o vale refeição dado pelo pai.
Passados os primeiros anos de puro sufoco, todas nós fomos nos ajeitando e pudemos fazer do consultório nossa fonte de renda principal. Foi a melhor época da minha vida profissional, sem sombra de dúvida.
A gente foi crescendo, namorando, juntando, casando, mudando. Uma saiu e voltou, a outra saiu e mudou, a outra veio, a outra foi, a outra mudou um tempo depois. Em 2006 sobramos eu. Mudei de andar, arrumei uma nova sócia e eis que aqui estou há 13 anos, neste mesmo prédio.
Só que agora eu preciso mudar porque o espaço ficou pequeno demais pra uma sócia e eu. Vou agora em carreira solo. Um consultório só pra mim.
Só que eu tô pra morrer de preguiça e antipatia de pensar em bater perna pra achar um lugar novo (semanas andando, mil telefonemas, negociação de grana, conquistar o novo porteiro, descobrir as manhas do lugar), reformar tudo (semanas e semanas de encheção de saco e gastos exorbitantes), encaixotar minhas coisas, dividir "os bens" com a futura ex-sócia, fazer a mudança, avisar todo mundo (colegas, telefonica, internet, bancos e assim vai)...
Eu sofro demais cada vez que tenho que mudar qualquer coisa, mas a verdade é que eu gosto. Mudança é bom. Eu gosto de coisa nova. Mas tô apavorada de pensar no perrengue que eu vou passar nos próximos tempos.
Porque dessa vez estou como vim ao mundo e como dele sairei: sozinha.
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Mas tava tudo bem, porque a gente estava junto. Ninguém poderia escolher uma turma melhor pra começar a carreira. Sócias, amigas, irmãs. Foram anos de pindaíba coletiva, meses e meses no negativo, trabalhos braçais alternativos pra sustentar o CENPS (era assim que chamava o nosso Centro de Neuropsico).
Apesar de muito trabalho no hospital (não-remunerado) o consultório começou muito fraco e nossas contas eram absurdamente altas. Assim sendo, nosso dinheirinho de pagar as contas e as cervejas vinha da venda de mantas de algodão, trabalho no balcão da cafeteria, aula de balé, aulas de inglês, secretariagem da professora, baby sitting, monitoria de acampamento, rolo com o vale refeição dado pelo pai.
Passados os primeiros anos de puro sufoco, todas nós fomos nos ajeitando e pudemos fazer do consultório nossa fonte de renda principal. Foi a melhor época da minha vida profissional, sem sombra de dúvida.
A gente foi crescendo, namorando, juntando, casando, mudando. Uma saiu e voltou, a outra saiu e mudou, a outra veio, a outra foi, a outra mudou um tempo depois. Em 2006 sobramos eu. Mudei de andar, arrumei uma nova sócia e eis que aqui estou há 13 anos, neste mesmo prédio.
Só que agora eu preciso mudar porque o espaço ficou pequeno demais pra uma sócia e eu. Vou agora em carreira solo. Um consultório só pra mim.
Só que eu tô pra morrer de preguiça e antipatia de pensar em bater perna pra achar um lugar novo (semanas andando, mil telefonemas, negociação de grana, conquistar o novo porteiro, descobrir as manhas do lugar), reformar tudo (semanas e semanas de encheção de saco e gastos exorbitantes), encaixotar minhas coisas, dividir "os bens" com a futura ex-sócia, fazer a mudança, avisar todo mundo (colegas, telefonica, internet, bancos e assim vai)...
Eu sofro demais cada vez que tenho que mudar qualquer coisa, mas a verdade é que eu gosto. Mudança é bom. Eu gosto de coisa nova. Mas tô apavorada de pensar no perrengue que eu vou passar nos próximos tempos.
Porque dessa vez estou como vim ao mundo e como dele sairei: sozinha.
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terça-feira, 5 de maio de 2009
Got fire, honey?
Quando eu morava na Philadelphia, eu costumava comprar meu café multicondimentado num copo de 20 oz. do Wawa e me sentava na pracinha pra ver o movimento, ler alguma coisa, fumar meu cigarrinho e, inevitavelmente, fazer amigos. Sim. Fazer amigos na pracinha. Isso pra mim foi uma grande surpresa americana.
Toda a rigidez e frieza que fazem a fama dos americanos no ambiente de trabalho ou sei lá mais onde, realmente não existem no dia-a-dia da cidade. Se você está à toa num banco de madeira, todo tipo de gente pode parar pra conversar com você e ser seu melhor amigo durante aquele bate-papo. Mas outro dia eu falo mais dos inúmeros amigos que fiz na Rittenhouse Square. Hoje eu queria falar de uma mulher só.
Era uma senhora dos seus 60 e poucos anos, bem bonitona de corpo, que devia ter sido muito linda na juventude (o que hoje só se imaginava pelo azul doído dos olhos). Estava vestida de forma um pouco mais jovial do que sua idade realmente permitia, mas sua aparência geral dizia que tinha um bom nível social. Ela se aproximou com um cigarro apagado entre os dedos e me pediu fogo.
Pra quem não sabe, o cigarro, assim como os bebês e os cachorros, são um ótimo quebra gelo social, e podem render assunto por mais de hora e criar amigos leais para sempre (se bem que os dois últimos, embora um sucesso na pracinha, não funcionariam bem na balada).
Nosso assunto veio fácil, principalmente porque tinham acabado de aprovar a lei antifumo na costa oeste dos Esteites. E foi então que ela fez sua observação triste, de como os prazeres humanos mais elementares vão se submetendo às mudanças do mundo.
Quantos anos você tem, honey? ela perguntou. E depois da minha resposta emendou: então, você não sabe o que é sexo sem se preocupar com HIV e camisinha. True. Quando o mundo conheceu o paciente zero da AIDS eu tinha 8 anos.
And now baby, ela completou, a nova geração não vai saber o que é passar horas e horas bebendo alguma coisa e fumando com os amigos ao redor de uma mesa!
A conversa se desenvolveu com imensa cumplicidade entre nós, como duas pessoas sortudas que puderam passar os jovens anos fumando com os amigos no bar. Só quem já fez isso sabe do que se trata. E não tem nada - ou quase nada - melhor nesse mundo.
Você pensa na vida entre baforadas e muda de opinião e revê seus conceitos e se torna uma pessoa melhor a cada bituca fedorenta apagada. O tempo de se queimar um cigarro é o tempo de gestação de uma idéia brilhante. Aquele dia na pracinha nós duas tivemos certeza de que a Revolução Francesa e a Independência Americana jamais teriam acontecido se não fosse permitido àqueles homens fumar com os amigos no bar.
Eu sei que é pro bem de todos e etc e tal. Mas vou falar uma coisa pra vocês: a minha vida nunca mais será a mesma depois dessa lei antifumo. Tô achando péssimo. Muito ruim mesmo. Tô bem triste.
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Toda a rigidez e frieza que fazem a fama dos americanos no ambiente de trabalho ou sei lá mais onde, realmente não existem no dia-a-dia da cidade. Se você está à toa num banco de madeira, todo tipo de gente pode parar pra conversar com você e ser seu melhor amigo durante aquele bate-papo. Mas outro dia eu falo mais dos inúmeros amigos que fiz na Rittenhouse Square. Hoje eu queria falar de uma mulher só.
Era uma senhora dos seus 60 e poucos anos, bem bonitona de corpo, que devia ter sido muito linda na juventude (o que hoje só se imaginava pelo azul doído dos olhos). Estava vestida de forma um pouco mais jovial do que sua idade realmente permitia, mas sua aparência geral dizia que tinha um bom nível social. Ela se aproximou com um cigarro apagado entre os dedos e me pediu fogo.
Pra quem não sabe, o cigarro, assim como os bebês e os cachorros, são um ótimo quebra gelo social, e podem render assunto por mais de hora e criar amigos leais para sempre (se bem que os dois últimos, embora um sucesso na pracinha, não funcionariam bem na balada).
Nosso assunto veio fácil, principalmente porque tinham acabado de aprovar a lei antifumo na costa oeste dos Esteites. E foi então que ela fez sua observação triste, de como os prazeres humanos mais elementares vão se submetendo às mudanças do mundo.
Quantos anos você tem, honey? ela perguntou. E depois da minha resposta emendou: então, você não sabe o que é sexo sem se preocupar com HIV e camisinha. True. Quando o mundo conheceu o paciente zero da AIDS eu tinha 8 anos.
And now baby, ela completou, a nova geração não vai saber o que é passar horas e horas bebendo alguma coisa e fumando com os amigos ao redor de uma mesa!
A conversa se desenvolveu com imensa cumplicidade entre nós, como duas pessoas sortudas que puderam passar os jovens anos fumando com os amigos no bar. Só quem já fez isso sabe do que se trata. E não tem nada - ou quase nada - melhor nesse mundo.
Você pensa na vida entre baforadas e muda de opinião e revê seus conceitos e se torna uma pessoa melhor a cada bituca fedorenta apagada. O tempo de se queimar um cigarro é o tempo de gestação de uma idéia brilhante. Aquele dia na pracinha nós duas tivemos certeza de que a Revolução Francesa e a Independência Americana jamais teriam acontecido se não fosse permitido àqueles homens fumar com os amigos no bar.
Eu sei que é pro bem de todos e etc e tal. Mas vou falar uma coisa pra vocês: a minha vida nunca mais será a mesma depois dessa lei antifumo. Tô achando péssimo. Muito ruim mesmo. Tô bem triste.
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domingo, 12 de abril de 2009
I will survive!
já faz quase 10 dias que eu tô passando um 'perrengue' por causa da cirurgia dos meus dentes. a menos que eu opte por ficar viajando nos analgésicos, eu tenho uma dorzinha fiadaputa ininterrupta e latejante que não vai embora e tá me deixando muito ranzinza e chorona. e mesmo depois desse tempo todo eu ainda tô bochechuda.
essa não é a primeira vez que eu passo por isso, mas naquela época isso não pegava mal. tem coisas que tem limite máximo de idade! assim como pança, bochecha e cara de choro são bonitinhos na pré escola, só que 'não tá ornando' com uma mulher da minha idade e posição social. já tô de saco cheio!
ok, ok. foi só um desabafo. isso há de passar. eu vou sobreviver.
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essa daí é a foto do meu primeiro RG, emitido para minha primeira viagem internacional. eu fui pro Paraguai, aos dois anos e meio de idade, com papai, mamãe, irmão e irmã. num fusca. as you may see, 'perrengue' ain´t no stranger to me. I will survive.
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essa não é a primeira vez que eu passo por isso, mas naquela época isso não pegava mal. tem coisas que tem limite máximo de idade! assim como pança, bochecha e cara de choro são bonitinhos na pré escola, só que 'não tá ornando' com uma mulher da minha idade e posição social. já tô de saco cheio!ok, ok. foi só um desabafo. isso há de passar. eu vou sobreviver.
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essa daí é a foto do meu primeiro RG, emitido para minha primeira viagem internacional. eu fui pro Paraguai, aos dois anos e meio de idade, com papai, mamãe, irmão e irmã. num fusca. as you may see, 'perrengue' ain´t no stranger to me. I will survive.
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quinta-feira, 9 de abril de 2009
Pão-de-casa e free-thinking
Quando eu era criança, passava muitos feriados na chacrinha do tio Geraldo. Era um dos lugares mais incríveis do universo: tinha uma casinha que era um chuchu, com uma área externa super gostosa, de pedra mineira no chão (aquela amarelada, porosa e meio cintilante, sabe?). Tinha churrasqueira e forno a lenha, onde minha tia Maria Helena sempre fazia deliciosos 'pães-de-casa', que a gente comia quentinho com manteiga derretendo.
A lembrança mais nítida que eu tenho desse local é o pseudo-seríssimo tio Geraldo 'passeando' um sapo-boi com um barbante, como se fosse um poodle na coleira. Mas acho que isso é assunto pra outra história. O que eu quero contar aqui é o episódio de um feriado de Páscoa.
Eu devia ter uns 6 anos e pela primeira vez presenciei um 'ritual' de malhação do Judas, promovido pelos moradores da vila que havia ao lado da chacrinha. Creio que foi a primeira vez que eu fiquei chocada com a natureza humana e posso dizer, sem dúvida, que foi uma cena crucial na formação da pessoa que eu sou hoje.
Um boneco feito de roupa de gente recheada foi espancado por homens, mulheres e crianças barulhentos e excitados, munidos de cabos de vassoura, galhos de árvore e outros tipos de bastões. Havia gritos, xingamentos e revolta. Mas aquilo não combinava com a satisfação no rosto das pessoas. Definitivamente eu não consegui captar aquele 'mood'.
Meus irmãos e primos mais velhos acompanhavam também aquela movimentação e pareciam achar aquilo mais natural, o que novamente me chocava. Como assim? Vocês não estão vendo isso que eu estou vendo? Hellooo-ow! Alguém me explicou que Judas tinha traído Jesus. O que é traído? Ah! Ele fez uma coisa muito ruim pra Jesus.
Eu sabia que Jesus era do bem. Ele cuidava da gente e a gente rezava pra ele à noite. Ele nasceu pobrezinho no Natal e depois ajudou as pessoas. Eu podia entender que Jesus era do nosso time e que a gente não gostava de quem sacaneasse com ele. Mas gente, por pior que fosse o que Judas tinha aprontado, aquele castigo me parecia exagerado demais. E definitivamente não fazia sentido ter prazer naquele papel de algoz.
Aquilo nunca me saiu da cabeça. Pode parecer exagero, mas eu creio que foi daí que eu comecei a ter consciência de que eu simplesmente não aceitava algumas coisas do status quo e ia ter que aprender a pensar diferente das outras pessoas. Desde a tenra infância eu sou ranheta e overthinker. Mas confesso que venho me conformando que a minha indignação é minha amiga. Mesmo que ela faça de mim uma pessoa um pouco cansativa.
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A lembrança mais nítida que eu tenho desse local é o pseudo-seríssimo tio Geraldo 'passeando' um sapo-boi com um barbante, como se fosse um poodle na coleira. Mas acho que isso é assunto pra outra história. O que eu quero contar aqui é o episódio de um feriado de Páscoa.
Eu devia ter uns 6 anos e pela primeira vez presenciei um 'ritual' de malhação do Judas, promovido pelos moradores da vila que havia ao lado da chacrinha. Creio que foi a primeira vez que eu fiquei chocada com a natureza humana e posso dizer, sem dúvida, que foi uma cena crucial na formação da pessoa que eu sou hoje.
Um boneco feito de roupa de gente recheada foi espancado por homens, mulheres e crianças barulhentos e excitados, munidos de cabos de vassoura, galhos de árvore e outros tipos de bastões. Havia gritos, xingamentos e revolta. Mas aquilo não combinava com a satisfação no rosto das pessoas. Definitivamente eu não consegui captar aquele 'mood'.
Meus irmãos e primos mais velhos acompanhavam também aquela movimentação e pareciam achar aquilo mais natural, o que novamente me chocava. Como assim? Vocês não estão vendo isso que eu estou vendo? Hellooo-ow! Alguém me explicou que Judas tinha traído Jesus. O que é traído? Ah! Ele fez uma coisa muito ruim pra Jesus.
Eu sabia que Jesus era do bem. Ele cuidava da gente e a gente rezava pra ele à noite. Ele nasceu pobrezinho no Natal e depois ajudou as pessoas. Eu podia entender que Jesus era do nosso time e que a gente não gostava de quem sacaneasse com ele. Mas gente, por pior que fosse o que Judas tinha aprontado, aquele castigo me parecia exagerado demais. E definitivamente não fazia sentido ter prazer naquele papel de algoz.
Aquilo nunca me saiu da cabeça. Pode parecer exagero, mas eu creio que foi daí que eu comecei a ter consciência de que eu simplesmente não aceitava algumas coisas do status quo e ia ter que aprender a pensar diferente das outras pessoas. Desde a tenra infância eu sou ranheta e overthinker. Mas confesso que venho me conformando que a minha indignação é minha amiga. Mesmo que ela faça de mim uma pessoa um pouco cansativa.
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quinta-feira, 2 de abril de 2009
Mi noche triste
Eu sempre fui muito preocupada, meio aflita demais com as coisas. Tem gente que fala que eu sou pessimista. Minha amiga de longa data fala que eu sou muito intensa. Quando eu era pequena minha mãe me tirava falando que eu era dramática.
Lembro que quando eu ficava muito angustiada com alguma coisa, meus pais cantarolavam uma melodia de tango pra mesacanear ajudar a por as coisas em perspectiva e não me desesperar. Mas não sei se isso ajudou muito. Ainda hoje eu sinto que tudo que se passa ao meu redor causa muito impacto em mim. Como bem descreve outra amiga, eu sinto que tudo 'esmaga meu coração'.
Então foi assim que, pela primeira vez na minha vida, e possivelmente a última, eu senti simpatia e compaixão pelo
Diego Maradona. No baile que a Argentina levou da Bolívia por 6x1, o treinador derrotado afirmou que os gols contra seu time 'Eram como punhaladas no coração'!
Tadinho, gente! Não deve ser fácil crescer ouvindo o som lamurioso do tango! É muito lindo, muito triste, muito inteeeenso! O coração deve doer mesmo... Eu bem sei...
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Lembro que quando eu ficava muito angustiada com alguma coisa, meus pais cantarolavam uma melodia de tango pra me
Então foi assim que, pela primeira vez na minha vida, e possivelmente a última, eu senti simpatia e compaixão pelo
Diego Maradona. No baile que a Argentina levou da Bolívia por 6x1, o treinador derrotado afirmou que os gols contra seu time 'Eram como punhaladas no coração'!
Tadinho, gente! Não deve ser fácil crescer ouvindo o som lamurioso do tango! É muito lindo, muito triste, muito inteeeenso! O coração deve doer mesmo... Eu bem sei...
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quarta-feira, 18 de março de 2009
Clodovil
Quando eu era pequena o Clodovil era a única referência que eu tinha sobre o que era ser gay. Ele tinha um programa na TV no qual ele desenhava ao vivo uns modelitos para as telespectadoras. Era incrível aquilo! Ele tinha um estilo de fazer uns rostos angulosos, sem detalhes dos traços. Depois ele coloria e assinava. Aquilo era extremamente cool!
19/03
Eu acho que rolavam umas entrevistas e ele falava de um jeito super afetado que, me lembro, eu identificava como diferente dos outros homens. As pessoas falavam que ele era 'bicha'. O que pra mim não queria dizer muita coisa.
Eu não me lembro exatamente de ter perguntado isso, mas sei que foi minha mãe quem me ensinou: bicha é um homem que queria ser mulher. Ok, vai. Eu tinha uns 6 anos, não ia entender mais do que isso. Como naquela época eu ainda achava que as mulheres eram mesmo mais legais, eu de fato simpatizava com um homem que legitimasse isso. Ah, tá! O cara quer ser mulher, então? Beleza! I understand that. I respect that. Eu curtia o Clodovil.
Mais tarde, quando as questões de gênero entraram na minha vida explicitamente e acabaram com meu sossego, lembro que bicha não era mais um conceito de valor neutro. Era pejorativo e usado pra encher o saco dos meninos. Se você queria irritar um moleque era só virar a mão pra trás (ainda se usa o termo desmunhecar?) e dizer assim: "Hmmm Clô!" Era briga na certa.
Então o Clodovil meio que sumiu (pelo menos da minha vida) por muitos anos. Aí ressurgiu num programa de entrevistas que, se não me engano, chamava "Clô, para os íntimos" e ele mandava os convidados olharem para a câmera da verdade para responder perguntas indiscretas. Uma das vezes o convidado era o Supla, na época que ele não era pop ainda, ele era metido a querer ser mal elemento. Foi pelas tantas esse menino me sobe na mesa ou na cadeira e grita pro Clodovil: "Pô! Axim não dá! Voxê não me deixa falar!"
Depois disso tenho vagas lembranças sobre Clô. Aparecia no meu radar bem esporadicamente: acho que ele brigou com algum canal de TV, a casa dele saiu numa revista de decoração (o banheiro tinha um vaso sanitário no meio de um jardim), ele passou a ser enxovalhado pelos imbecis daquele programa pseudo-humorístico, ele era dono de um apartamento no predinho mais charmoso da Av. República do Líbano (aquele coberto de hera), depois virou candidato a algo, elegeu-se, falou umas pataquadas. E agora morreu.
Nunca soube que tenha feito mal pra ninguém.
Eu não me lembro exatamente de ter perguntado isso, mas sei que foi minha mãe quem me ensinou: bicha é um homem que queria ser mulher. Ok, vai. Eu tinha uns 6 anos, não ia entender mais do que isso. Como naquela época eu ainda achava que as mulheres eram mesmo mais legais, eu de fato simpatizava com um homem que legitimasse isso. Ah, tá! O cara quer ser mulher, então? Beleza! I understand that. I respect that. Eu curtia o Clodovil.
Mais tarde, quando as questões de gênero entraram na minha vida explicitamente e acabaram com meu sossego, lembro que bicha não era mais um conceito de valor neutro. Era pejorativo e usado pra encher o saco dos meninos. Se você queria irritar um moleque era só virar a mão pra trás (ainda se usa o termo desmunhecar?) e dizer assim: "Hmmm Clô!" Era briga na certa.
Então o Clodovil meio que sumiu (pelo menos da minha vida) por muitos anos. Aí ressurgiu num programa de entrevistas que, se não me engano, chamava "Clô, para os íntimos" e ele mandava os convidados olharem para a câmera da verdade para responder perguntas indiscretas. Uma das vezes o convidado era o Supla, na época que ele não era pop ainda, ele era metido a querer ser mal elemento. Foi pelas tantas esse menino me sobe na mesa ou na cadeira e grita pro Clodovil: "Pô! Axim não dá! Voxê não me deixa falar!"
Depois disso tenho vagas lembranças sobre Clô. Aparecia no meu radar bem esporadicamente: acho que ele brigou com algum canal de TV, a casa dele saiu numa revista de decoração (o banheiro tinha um vaso sanitário no meio de um jardim), ele passou a ser enxovalhado pelos imbecis daquele programa pseudo-humorístico, ele era dono de um apartamento no predinho mais charmoso da Av. República do Líbano (aquele coberto de hera), depois virou candidato a algo, elegeu-se, falou umas pataquadas. E agora morreu.
Nunca soube que tenha feito mal pra ninguém.
Que descanse em paz.
Ou que brilhe no céu como uma estrelinha. Ou como purpurina.
Ou que brilhe no céu como uma estrelinha. Ou como purpurina.
***
19/03
quarta-feira, 11 de março de 2009
Dia Internacional da Legas
A gente poderia dividir as pessoas do mundo em dois: as que gostam e as que não gostam do dia do próprio aniversário. Eu e o corvo que pousa no meu ombro de tempos em tempos ficaríamos nesse último. Não gosto de ficar mais velha, não gosto de comemorar, fico meio deprezinha, enfim, sou um saco.
Já no outro grupo, o das pessoas que, SIM, gostam de fazer aniversário, acho que a principal representante deveria ser a Legas, minha amiga querida. Todo mundo que a conhece sabe que o dia 11 de março não é apenas o aniversário dela. É o Dia Internacional da Legas. Ela costuma dizer que nesse dia haveria acordo de cessar fogo entre os países em guerra, seria feriado mundial, e as festividades tomariam conta do planeta.
Assim sendo, obviamente, as festas do Dia da Legas eram sempre sensacionais e em geral contavam com várias dezenas de convivas animadíssimos, que levavam ainda outros amigos, que embora não conhecessem a aniversariante, sabiam que as festas eram imperdíveis e em geral acabavam com as luzes apagadas, som alto e gente bem estranha dançando descalça pela sala até o dia clarear. Esse era o típico final das festas.
Na verdade, o início da festa também era muito semelhante, todo ano. O evento era marcado para as 20h, porque a Legas queria "que começasse cedo pra durar mais" (sic). Por volta das 18h ela já estava com a casa arrumada, roupa nova, cabelo feito, olhos enormes brilhando e abria a primeira cervejinha pra acalmar os gremlins de sua ansiedade. Em seguida, os amigos mais próximos começavam a receber telefonemas da aniversariante que, após nosso alô, miava o seguinte: "Onde cê táááá? Você não vem?". Era sempre assim. Até chegar o horário marcado, cada um de nós já tinha recebido pelo menos umas 3 ligações desse teor.
Quando finalmente chegavamos à festa, as 20h em ponto, a pessoa já estava significativamente bêbada, com os olhos mais brilhantes e maiores (como se fosse possível) e nos recebia na porta, antes da campainha, como se estivesse de tocaia. Saía de bracinhos estendidos e se jogava num abraço, meio chorosa: "Achei que vocês não vinham! Achei que ninguém vinha na minha festa!"
E fazia isso pra todos os convidados, até os desconhecidos: "Eba amigo novo, achei que ninguém vinha na minha festa!". Quase uma centena de vezes. Cada vez mais feliz. Cada vez mais bebinha. E depois se jogava na festa, ria sem parar com aquela boca cheia de dentes e se divertia horrores. Todo santo ano.
Agora ela não mora mais em SP. A cidade perdeu um de seus melhores eventos.
...
Zeca: Feliz Dia Internacional da Legas pra você!
I love you and I miss you.
Você tá sempre no meu pensamento e no meu coração.
.
Já no outro grupo, o das pessoas que, SIM, gostam de fazer aniversário, acho que a principal representante deveria ser a Legas, minha amiga querida. Todo mundo que a conhece sabe que o dia 11 de março não é apenas o aniversário dela. É o Dia Internacional da Legas. Ela costuma dizer que nesse dia haveria acordo de cessar fogo entre os países em guerra, seria feriado mundial, e as festividades tomariam conta do planeta.
Assim sendo, obviamente, as festas do Dia da Legas eram sempre sensacionais e em geral contavam com várias dezenas de convivas animadíssimos, que levavam ainda outros amigos, que embora não conhecessem a aniversariante, sabiam que as festas eram imperdíveis e em geral acabavam com as luzes apagadas, som alto e gente bem estranha dançando descalça pela sala até o dia clarear. Esse era o típico final das festas.
Na verdade, o início da festa também era muito semelhante, todo ano. O evento era marcado para as 20h, porque a Legas queria "que começasse cedo pra durar mais" (sic). Por volta das 18h ela já estava com a casa arrumada, roupa nova, cabelo feito, olhos enormes brilhando e abria a primeira cervejinha pra acalmar os gremlins de sua ansiedade. Em seguida, os amigos mais próximos começavam a receber telefonemas da aniversariante que, após nosso alô, miava o seguinte: "Onde cê táááá? Você não vem?". Era sempre assim. Até chegar o horário marcado, cada um de nós já tinha recebido pelo menos umas 3 ligações desse teor.
Quando finalmente chegavamos à festa, as 20h em ponto, a pessoa já estava significativamente bêbada, com os olhos mais brilhantes e maiores (como se fosse possível) e nos recebia na porta, antes da campainha, como se estivesse de tocaia. Saía de bracinhos estendidos e se jogava num abraço, meio chorosa: "Achei que vocês não vinham! Achei que ninguém vinha na minha festa!"
E fazia isso pra todos os convidados, até os desconhecidos: "Eba amigo novo, achei que ninguém vinha na minha festa!". Quase uma centena de vezes. Cada vez mais feliz. Cada vez mais bebinha. E depois se jogava na festa, ria sem parar com aquela boca cheia de dentes e se divertia horrores. Todo santo ano.
Agora ela não mora mais em SP. A cidade perdeu um de seus melhores eventos.
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Zeca: Feliz Dia Internacional da Legas pra você!
I love you and I miss you.
Você tá sempre no meu pensamento e no meu coração.
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domingo, 8 de março de 2009
Am I the same girl? Really?
Z Carniceria. Rua Augusta, 934. Centro.
Na semana passada um dos amigos jovens sugeriu um lugar diferente pra nossa cervejinha semanal. No baixo Augusta, mantém o clima da locação - um antigo açougue. Tem garçonetes poptchura de topetinho e rabo de cavalo, dj a postos mandando bem num rockabilly clááááááássico.
Eu cheguei cedo, antes de todos os amigos, e acabei ficando por alí admirando afauna população local. Misturados a uma pequena minoria de gente normal, havia menininhas descoladas em estilo lillyallenesque. Garotas mais "maduras", quase da minha idade, vestidas e maquiadas com um ar de Betty Boop. Uns novos modernos - 'os compridos' que agora andam por aí: muito magros, muito altos, meio andróginos, de roupa muito apertada e cabelinho liso meio comprido (acho que eles são a tribo chick magnet do momento; vieram substituir os cabelinhos encaracolados + barba).
E tinha também outra galerinha, que foi a que mais me intrigou, composta na maioria por homens, já confortáveis na década dos 30, de topete e costeleta, cheeeeios de tatuagens, piercings, alargadores de orelha, etc e tal. Eles me pareciam incrivelmente familiares. Era uma viagem ao século passado, quando esses caras ainda estavam na primeira tatuagem, exibida com orgulho em baixo da manga meio dobrada da camiseta. E eu ainda era menor de idade e meu pai me levava com as amigas pra dançar na Praça Roosevelt num muquifo chamado HOELLISH, que tocava rockabilly e era o lugar mais legal do planeta.
Corta pra quase 20 anos depois. Lá estamos todos: eu e os carinhas de topete que dançavam com a gente e faziam a gente suspirar de saudade durante a semana. Só que agora eles têm muitas tatoos a mais e alguns piercings pelo corpo. O resto estava igual: roupas, cabelo, atitude. E eu tenho quilos a mais. E uso roupas sem graça pra trabalhar no consultório. E tenho atitude sempre meio preocupada de quem carrega muitas chaves na bolsa. E nunca mais ouvi meus discos do Buddy Holly.
No caminho do banheiro passei pelo dj e tive um impulso de cumprimentá-lo, porque o som estava sensacional. Ele pareceu surpreso com o elogio e sorriu meio sem graça, daqueles sorrisos sem malícia que fazem os homens parecerem meninos - acho que foi por isso que eu o reconheci. Aposto que você tem 30 e poucos anos, eu disse. Ele só assentiu com a cabeça. Você não era amigo do Johnny e estava sempre na Hoellish da Praça Roosvelt? Ele deu uma risada mais relaxada de quem agora estava entendendo aquele papo esquisito: Nooossa! Faz tempo! Mas eu sabia que te conhecia de algum lugar... É, eu também sabia. Bom, valeu pelo som. Falou.
Ainda bem que ele me reconheceu. Porque eu mesma quase já não me reconheço mais. Tem coisas que aconteceram há tanto tempo que eu nem consigo saber se minhas memórias são de verdade.
...
Fiquei tão saudosista! Deu vontade de dividir umas lembranças.
.
Na semana passada um dos amigos jovens sugeriu um lugar diferente pra nossa cervejinha semanal. No baixo Augusta, mantém o clima da locação - um antigo açougue. Tem garçonetes poptchura de topetinho e rabo de cavalo, dj a postos mandando bem num rockabilly clááááááássico.
Eu cheguei cedo, antes de todos os amigos, e acabei ficando por alí admirando a
E tinha também outra galerinha, que foi a que mais me intrigou, composta na maioria por homens, já confortáveis na década dos 30, de topete e costeleta, cheeeeios de tatuagens, piercings, alargadores de orelha, etc e tal. Eles me pareciam incrivelmente familiares. Era uma viagem ao século passado, quando esses caras ainda estavam na primeira tatuagem, exibida com orgulho em baixo da manga meio dobrada da camiseta. E eu ainda era menor de idade e meu pai me levava com as amigas pra dançar na Praça Roosevelt num muquifo chamado HOELLISH, que tocava rockabilly e era o lugar mais legal do planeta.
Corta pra quase 20 anos depois. Lá estamos todos: eu e os carinhas de topete que dançavam com a gente e faziam a gente suspirar de saudade durante a semana. Só que agora eles têm muitas tatoos a mais e alguns piercings pelo corpo. O resto estava igual: roupas, cabelo, atitude. E eu tenho quilos a mais. E uso roupas sem graça pra trabalhar no consultório. E tenho atitude sempre meio preocupada de quem carrega muitas chaves na bolsa. E nunca mais ouvi meus discos do Buddy Holly.
No caminho do banheiro passei pelo dj e tive um impulso de cumprimentá-lo, porque o som estava sensacional. Ele pareceu surpreso com o elogio e sorriu meio sem graça, daqueles sorrisos sem malícia que fazem os homens parecerem meninos - acho que foi por isso que eu o reconheci. Aposto que você tem 30 e poucos anos, eu disse. Ele só assentiu com a cabeça. Você não era amigo do Johnny e estava sempre na Hoellish da Praça Roosvelt? Ele deu uma risada mais relaxada de quem agora estava entendendo aquele papo esquisito: Nooossa! Faz tempo! Mas eu sabia que te conhecia de algum lugar... É, eu também sabia. Bom, valeu pelo som. Falou.
Ainda bem que ele me reconheceu. Porque eu mesma quase já não me reconheço mais. Tem coisas que aconteceram há tanto tempo que eu nem consigo saber se minhas memórias são de verdade.
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Fiquei tão saudosista! Deu vontade de dividir umas lembranças.
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quarta-feira, 4 de março de 2009
o corredor X a salinha
sabe o que que era época boa? mas boa meeeesmo?
era a fase que eu e meus amigos estávamos no começo da carreira. ninguém ainda tinha dado certo na vida, mas existia uma certa esperança e uma certa chance de que a gente ia virar alguma coisa. estávamos semi-encaminhados, mas lá no final da cadeia alimentar, por assim dizer.
todo mundo meio em cargos de peão, ocupando o espaço do corredor, mas cheios de gás, cheios de idéias. e de brilho. a gente tinha que por a mão na massa, trabalhar pra valer, às vezes tinha algum pepino que só a gente sabia resolver. principalmente se era alguma coisa no computador. logo eu! a estagiária recém-formada era obrigada a passar a noite refazendo o trabalho deles porque nenhum dos fodidões sabia nada! na-da! só tinha mané naquele lugar...
foram várias altas horas fazendo trabalho braçal. mas sem muita responsabilidade. sem ter que decidir nada. só cumprindo as ordens que vinham do cara lá da salinha. ah! que longos cafés a gente tomava naquele corredor reclamando que alguém tinha dado tanta coisa pra gente fazer! o que que eles estavam pensando? por que não decidiu antes que era pra fazer do jeito B e pediu o jeito A? sabe come é chefe, né? chegou lá por pura politicagem, mas é uma anta.
só que naquela época, quando a gente ia pra casa, não levava nenhuma preocupação. a gente era feliz e quase não sabia que era depois do trabalho no corredor que a vida mostrava seu lado mais doce: sentar no bar com todo mundo e reclamar de o quanto o mundo era injusto por a gente não ter a grana e o tipo de trabalho que merecia! na boa, fora a gente, só tinha imbecil no mundo! a gente era a promessa. a solução. a genialidade bruta e incompreendida.
a gente passava noites e noites juntos no bar, inconformados com a incompetência e a mediocridade dos nossos chefes. se quem manda não fosse tão medíocre, nosso talento já teria sido revelado! é que aqueles adultos, sentados nas suas salinhas, insistiam em fazer tudo errado. não sabiam nem usar o excel e vinham mandar a gente, que estava naquela mesinha improvisada no corredor, refazer todo o trabalho que eles mesmos tinham pedido. e nem falavam inglês direito! como é que um despreparado desses virava chefe? a gente não entendia.
até que um dia a gente ganhou uma salinha qualquer, um crachá escrito aspone, um pouco mais de grana e muito, mas muito mais responsabilidade. e o compromisso de fazer acontecer no mundo real, nem que tivesse que ser medíocre. a gente aprendeu que o que funciona é o arroz com feijão, desde que seja no prazo e dentro dos critérios estabelecidos.
e em troca a gente abriu mão da nossa cabeça fresca no final de semana, do nosso tempo livre pra tomar longos cafés ou infinitas cervejinhas no bar. e quer saber o pior de tudo? a gente teve que abrir mão de talvez ser genial. e teve que parar de ficar só reclamando pelos corredores. o mundo não é justo mesmo.
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era a fase que eu e meus amigos estávamos no começo da carreira. ninguém ainda tinha dado certo na vida, mas existia uma certa esperança e uma certa chance de que a gente ia virar alguma coisa. estávamos semi-encaminhados, mas lá no final da cadeia alimentar, por assim dizer.
todo mundo meio em cargos de peão, ocupando o espaço do corredor, mas cheios de gás, cheios de idéias. e de brilho. a gente tinha que por a mão na massa, trabalhar pra valer, às vezes tinha algum pepino que só a gente sabia resolver. principalmente se era alguma coisa no computador. logo eu! a estagiária recém-formada era obrigada a passar a noite refazendo o trabalho deles porque nenhum dos fodidões sabia nada! na-da! só tinha mané naquele lugar...foram várias altas horas fazendo trabalho braçal. mas sem muita responsabilidade. sem ter que decidir nada. só cumprindo as ordens que vinham do cara lá da salinha. ah! que longos cafés a gente tomava naquele corredor reclamando que alguém tinha dado tanta coisa pra gente fazer! o que que eles estavam pensando? por que não decidiu antes que era pra fazer do jeito B e pediu o jeito A? sabe come é chefe, né? chegou lá por pura politicagem, mas é uma anta.
só que naquela época, quando a gente ia pra casa, não levava nenhuma preocupação. a gente era feliz e quase não sabia que era depois do trabalho no corredor que a vida mostrava seu lado mais doce: sentar no bar com todo mundo e reclamar de o quanto o mundo era injusto por a gente não ter a grana e o tipo de trabalho que merecia! na boa, fora a gente, só tinha imbecil no mundo! a gente era a promessa. a solução. a genialidade bruta e incompreendida.
a gente passava noites e noites juntos no bar, inconformados com a incompetência e a mediocridade dos nossos chefes. se quem manda não fosse tão medíocre, nosso talento já teria sido revelado! é que aqueles adultos, sentados nas suas salinhas, insistiam em fazer tudo errado. não sabiam nem usar o excel e vinham mandar a gente, que estava naquela mesinha improvisada no corredor, refazer todo o trabalho que eles mesmos tinham pedido. e nem falavam inglês direito! como é que um despreparado desses virava chefe? a gente não entendia.
até que um dia a gente ganhou uma salinha qualquer, um crachá escrito aspone, um pouco mais de grana e muito, mas muito mais responsabilidade. e o compromisso de fazer acontecer no mundo real, nem que tivesse que ser medíocre. a gente aprendeu que o que funciona é o arroz com feijão, desde que seja no prazo e dentro dos critérios estabelecidos.
e em troca a gente abriu mão da nossa cabeça fresca no final de semana, do nosso tempo livre pra tomar longos cafés ou infinitas cervejinhas no bar. e quer saber o pior de tudo? a gente teve que abrir mão de talvez ser genial. e teve que parar de ficar só reclamando pelos corredores. o mundo não é justo mesmo.
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Meu deprimido favorito
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